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105. Sabedoria noturna

As diferenças e semelhanças entre vários animais que têm o mesmo nome mas são diferentes ou têm nomes iguais sendo diferentes. Caracóis e lesmas; lebres e coelhos; porcos-espinho e ouriços-caixeiros; camelos e dromedários; mochos e corujas.  

   As línguas que as pessoas falam em diferentes países ou regiões refletem a sua História e Cultura. As 5 principais línguas românicas como o Espanhol com 470 milhões de de pessoas que a falam como primeira língua, Português (veja-se o artigo Phases: AO de 1910) com 250 milhões, Francês com 150 milhões, Italiano com 60 milhões e Daco-Romeno (de que se falou no artigo Quinta flor do Lácio) com 25 milhões não são exceção. A base comum de todas elas é o Latim mas o Espanhol e o Português têm significativas influências do Árabe, o Francês das Línguas Germânicas e o Romeno das Línguas Eslavas que rodeiam a região. Mesmo o Italiano, a mais próxima do Latim, não deixou de se adaptar aos sucessivos invasores que dominaram a península após a queda do império.

   Uma das áreas de uma Língua que mais facilmente sofre influências externas é o seu Vocabulário. Há palavras cuja ligação à correspondente palavra em Latim é clara: da palavra “canis” em Latim veio “cão” (Português), “chien” (Francês), “cane” (Italiano) ou “câine” (Romeno). Em Espanhol (mais especificamente Castelhano) a palavra mais comum é “perro“, cuja etimologia não é consensual, havendo várias teorias que incluem derivar da onomatopeiaprr” com que os pastores chamavam  os seus animais ou ser oriunda de alguma língua hispânica pré-românica entretanto extinta. Mas “can” é também aceite como nome para cão em Espanhol/Castelhano.

   Além das diferenças entre as diversas línguas, há também diferenças dentro de cada língua, quer por regionalismos quer por atribuição de nomes diferentes a animais semelhantes quer por atribuição de nomes iguais a animais diferentes. O uso popular e a classificação científica nem sempre correspondem. Por exemplo, em Português, faz-se a diferença dos nomes para “caracol” e “lesma”. Mas, no grupo dos Gastrópodes (que inclui caracóis, lesmas, búzios, caramujos e lapas), das  6 ordens diferentes, duas deles contêm apenas lemas e só uma delas inclui caracóis (e também lesmas e semilesmas). O caracol é uma lesma com casca, como evidenciado pela história evolutiva das várias espécies de lesmas que foram desenvolvendo e perdendo a casca a longo do tempo. Curiosamente, em Alemão, caracol é “Schnecke” e lesma é “Nacktschnecke” (literalmente «caracol nu»). Há também uma canção infantil que diz “Caracol, ♫ caracol♪, põe os ♫ corninhos ao sol♫”. Mas no topo das hastes que tem na cabeça estão os olhos do caracol.

   Há outros animais que, por vezes, criam confusão na sua nomeação e diferenciação. Por exemplo, os coelhos e as lebres. Apesar das suas muitas parecenças físicas, têm nomes diferentes. Ambos pertencem à família dos Lagomorfos (do Grego lagos - «lebre») mas pertencem ambos à família dos Leporídeos (do latim lepus - «coelho») e os criadores de coelhos são chamados cunicultores (do grego kýniklos - coelho, nome de origem hispânica). As lebres são maiores em tamanho, são mais rápidas (as lebres podem alcançar uma velocidade máxima de 80 km/h e os coelhos de 50 km/h) e têm orelhas mais compridas. As lebres, na natureza, vivem em ninhos que fazem à superfície enquanto os coelhos escavam tocas que são habitadas por sucessivas gerações de coelhos. Outra grande diferença entre lebres e coelhos surge quando nascem pois as lebres recém-nascidas nascem com a pelagem completa, de olhos abertos e estão prontas para saltar pouco depois de nascerem. Os coelhos nascem sem pêlos, com os olhos fechados e por acabar de desenvolver (os pêlos e os olhos surgem cerca de 10 dias depois de nascerem). Apesar de serem maiores (e potencialmente economicamente mais viáveis) as lebres não se dão bem em cativeiro mas os coelhos dão. Foi a criação de coelhos que inspirou o Matemático Fibonacci a criar a sua famosa sequência, como visto no artigo Coelhos matemáticos. Além disso, como visto no artigo Coelhos laranjas, nem os coelhos nem as lebres se alimentam de cenouras mas sim de erva (fresca ou feno).

   Ainda outros animais sujeitos a dúvidas e questões sobre o seu nome e diferenças são os porcos-espinho e os ouriços-caixeiros. Será a personagem de uma série de jogos eletrónicos um porco-espinho sónico ou um ouriço-caixeiro sónico? Apesar da semelhança de terem o corpo coberto de espinhos e serem noturnos e se alimentarem de insetos, pertencem a espécies bem diferentes. O ouriço-caixeiro é oriundo de todo o continente europeu e norte de África, pertence à família dos Erinaceos, é essencialmente noturno e alimenta-se de insetos. Os seus pêlos no topo do corpo tornaram-se espinhos curtos e lisos e o seu mecanismo de defesa contra predadores é enrolar-se numa bola, com os espinhos virados para o exterior. Já nos porcos-espinho (há os oriundos da África, Ásia e Europa e há os oriundos da América-do-Norte), pertencem à família dos Hystricideos, têm pêlos normais e pêlos no topo do corpo que se tornaram espinhos compridos cheios de farpas que se soltam facilmente do corpo quando um predador lhes toca e ficam agarrados à pele. Os porco-espinhos não se enrolam numa bola como mecanismo de defesa e os seus espinhos são longos e ocos. Apesar de nem os ouriços-caixeiros nem os porcos-espinho produzirem veneno, as farpas dos espinho do porco-espinho são irritantes devido às suas farpas. Então a mascote azul tem características tanto de ouriço-caixeiro (enrola-se numa bola como mecanismo de defesa) como de porco-espinho (tem espinhos compridos no topo do corpo).

   E há também a questão dos camelos e dos dromedários. Em 1982, a cantora Suzy Paula editou a canção infantil “Areias“, sobre um camelo com duas bossas (uma versão da música francesa da cantora Chantal Goya chamada «Bécassine» de 1979. Mais informações podem ser obtidas em Enciclopédia de Cromos). Desde então, surgiu a confusão entre saber se o que distingue o camelo do dromedário é se tem uma ou duas bossas, parecendo a música sugerir que o camelo tem duas bossas e o dromedário apenas uma.  Há cerca de 15 milhões de anos, os camelos surgiram na América o Norte e espalharam-se, há 5 milhões de anos, para a América do Sul (através do recentemente formado Istmo do Panamá) e para a Ásia (através da já desaparecida Ponte terrestre Bering). Pouco depois se os Seres Humanos terem chegado ao continente vindos da Ásia há cerca de 10 mil anos, os camelos extinguiram-se do seu continente original (juntamente com os cavalos, como visto no artigo Tripla lição, mamutes, preguiças-gigantes e tigres dentes-de-sabre). Na América do Sul evoluíram e tornaram-se as lamasalpacas e, na Ásia, espalharam-se por todo o continente e norte de África, tendo evoluído em três espécies distintas: o camelo dromedário (uma bossa), o camelo da Báctria (duas bossas) e o camelo da Báctria selvagem (que, apesar do nome, é uma espécie diferente). Na Ásia, os camelos desenvolveram um reservatório de gordura no topo das costas (as bossas, para isolamento do calor e reserva de nutrientes) e glóbulos vermelhos ovais e não circulares (permitindo-lhes beber grandes quantidades de água de uma só vez sem que as células sanguíneas rebentem). Um camelo de 600 kg pode beber 200 litros de água em três minutos. Os camelos foram domesticados há cerca de 3 mil anos, Todos os dromedários são camelos mas nem todos os camelos são dromedários. Como visto no artigo Os Medos dos Magos, a Báctria fica na Ásia e fez parte do mesmo império de onde partiram os Três Reis Magos, oriundos da Média, o Império Persa.

   Os mochos e as corujas são outros animais cujos nomes são geralmente confundidos, em particular quanto são usados como símbolos de sabedoria e erudição. As corujas são uma extensa ordem de aves de rapina (Strigiformes) com duas famílias (Strigidae e Tytonidae) caracterizadas por terem uma cabeça grande, olhos grandes e virados para a frente (ao contrário da maioria das outras aves de rapina que têm os olhos colocados em cada lado da cabeça. No artigo Ilhas da bruma falou-se nos açores (ave de rapina) e nos Açores (arquipélago)), visão binocular, orifícios das orelhas a alturas diferentes na cabeça (para facilitarem a localização dos sons, que elas complementam girando a cabeça até 180º), garras afiadas e penas adaptadas para realizarem voos silenciosos e surpreenderem as suas presas durante a noite (a maioria das corujas caça à noite). Muitas espécies de corujas da família Strigidae têm tufos nas orelhas (pensa-se que para efeitos de camuflagem pois não parece ter uma função biológica específica). São geralmente estas corujas que são popularmente conhecidas como mochos. A disposição das penas do rosto, os grandes olhos que facilitam a visão à noite (mas não conferem visão noturna). A associação entre as corujas e a sabedoria tem vários milénios no mundo ocidental, sendo o registo mais antigo dessa associação ligada aos Antigos Gregos e a sua mitologia. A deusa patrona da cidade capital da Grécia, Atenas, era Athena,  a deusa virgem da sabedoria. A região em redor da cidade tinha várias pequenas corujas (Athene noctua) e as pequenas aves (com apenas 25 cm) foram associadas a essa deusa e tornaram-se o símbolo do conhecimento, sabedoria, perspicácia e erudição. Mas essa coruja não tem tufos na ponta das orelhas, apesar de pertencer à família Strigidae. A imagem tradicional da coruja com tufos na cabeça e óculos nelas pendurados não corresponde à origem da associação entre corujas (ou mochos) e sabedoria pois esta Coruja de Atena não tem tufos nas orelhas (e tem uma visão demasiado boas para necessitar de óculos).

   Há também cágados e tartarugas. E pombas e rolas. Ou cobras e serpentes e víboras. Ou os crocodilos e jacarés. Mas estes ficarão para o próximo artigo.