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157. Indiana Jones cantou ópera em Portugal

O gigante italiano que veio a Portugal e que carregava 12 homens, cantava  ópera, era engenheiro hidráulico, que desvendou os segredos do  Egito Antigo, artista de circo, pintor, que fundou a moderna Arqueologia e inspirou a criação de Indiana Jones.

 Em 1812, dois homens vindos de Inglaterra dirigem-se a Lisboa  ao recentemente construído Teatro Nacional de São Carlos (76 anos depois, num edifício mesmo à sua frente, nasceria Fernando Pessoa) para protagonizarem uma ópera baseada na peça “Valentino & Orson”. Um deles é um irlandês de nome James Curtin. O outro é o seu patrão, um italiano de nome Giovanni Battista Belzoni com uma altura de 2 metros. O São Carlos foi construído em 1793 para substituir o anterior Teatro Ópera do Tejo, que tinha sido destruído durante o Terramoto de 1755 (ver o artigo Escalas tremidas). Belzoni veio a Portugal, pouco depois da retirada das tropas franceses da Guerra Peninsular (como visto em Legião Laranja) para aferir se a península estava já segura. Voltaria passados 3 anos com a sua mulher numa digressão europeia. As invasões francesas  levaram à independência do Brasil, à alteração em Portugal do nome da cor «marrom» para «castanho», ao surgimento de expressões como «vai para o maneta»  de «armas e bagagens», à génese da implantação da Carbonária Portuguesa que contribuiu para a à implantação da República em 1910.

  “Valentino & Orson” é uma peça francesa do século XIV e conta a história de dois irmãos gémeos (Valentino e Orson) que foram abandonados num bosque na sua infância. Valentino foi encontrado pelo imperador e tornou-se um cavaleiro. Orson cresceu no bosque e tornou-se um selvagem até ser capturado por Valentino, que o domesticou e o tornou o seu criado e companheiro. Os dois eventualmente descobrem a verdadeira história da sua origem e resgatam a sua mãe de um gigante que a tinha aprisionado após ter sido repudiada injustamente pelo seu marido.

  Giovanni Battista Belzon (só acrescentou o «i» mais tarde) nasceu em 1778 na cidade italiana de Pádua, na altura parte da República de Veneza (onde também surgiu e sistematizou o conceito de números complexos, como abordado em Titubear complexo). Era conhecido na família por Gio Batta e assim se identificava muitas vezes. Ao longo da sua vida foi barbeiro, artista de circo fazendo demonstrações da prodigiosa força dos seus 2 metros de altura, malabarista,  ator e cantor de ópera, engenheiro hidráulico, aventureiro, egiptólogo, escritor, desenhador e artista, criador da moderna Arqueologia e influenciou a criação de histórias e de personagens como a de Indiana Jones, para a qual contribuiu as histórias das suas aventuras, a descoberta de relíquias egípcias no deserto, a hostilidade com um rival francês, a recusa em usar armas de fogo, a fuga a armadilhas antigas, o uso do chicote, as contribuições arqueológicas sem receber dinheiro para o museu para o qual trabalhava mas usava, nas suas aventuras egípcias, não um chapéu mas um turbante muito mais requintado. Mas Belzoni suplantou em muito as aventuras de Indiana Jones.

   Gio Batta nasceu numa família de um barbeiro e partilhava a casa com 13 irmãos. O pai iniciou-o na profissão mas ele tinha sonhos mais aventureiros e mais eruditos para a sua vida. Não queria ser barbeiro e, por isso, com 13 anos (1791) fugiu de casa com o irmão mais novo Francesco com 9 anos. Procuravam chegar a Roma para viverem os seus sonhos e, depois de se enganarem no caminho, chegaram à Cidade Eterna. Para ganhar a vida, usou a única habilitação que tinha e tornou-se naquilo contra o qual tinha fugido de casa: tornou-se barbeiro. Mas os seus sonhos de aventura e de erudição (que o acompanharam toda a vida) não estavam satisfeitos.

   Quando tinha 18 anos (1796), consciente  das lacunas na sua educação e também dos seus poucos recursos financeiros,  tornou-se monge capuchinho para poder estudar à vontade, desenvolver a sua paixão por mecanismos hidráulicos na fonte do mosteiro e escapar a um recrutamento forçado para o exército francês que dominava a Itália. Mas, quando tinha 20 anos (1798), Napoleão entrou em Roma e dissolveu as ordens religiosas. Belzoni (na altura ainda Belzon) decidiu escapar e alistar-se no exército da Prússia, na altura ainda independente do Império Francês. Com 24 anos (1802), encontrava-se na Holanda (Países Baixos) e entrou numa luta contra um grupo de soldados franceses. Estando toda a Europa Continental sob domínio francês, decide ir para Inglaterra. Lá chegado, mudou de nome para Bolzoni porque Belzon lhe parecia muito francês e conheceu a sua futura esposa Sarah, que o acompanharia ao longo de toda a vida.

   Com 25 anos (1803) trabalhava num circo, com o nome artístico de Sansão da Patagónia, juntamente com o seu irmão Francesco e a sua mulher Sarah  (1783-1870) realizando feitos de força: levantava 12 homens presos aos seu corpo no ar simultaneamente, com a sua mulher Sarah sobre os seus ombros. Mas fazia também malabarismo com bandeiras, tocava músicas em copos de vidro, fazia espetáculos fantasmagóricos com lanternas, fazia espetáculos de fogo e água usando construções hidráulicas da sua autoria, cantava ópera e participava em peças de teatro.
Como visto no artigo Galões Pacíficos,  foi Fernão de Magalhães quem encontrou uma tribo de homens muito altos na América do Sul, os Tehuelches, dando à região  o nome grego Patagónia.
Belzoni não impressionava apenas pelo seu tamanho físico mas também pelo tamanho dos seus interesses intelectuais tendo também estudado ótica, eletricidade, engenharia e hidráulica.

  Com 37 anos (1815) foi fazer uma digressão com a mulher pela Europa livre de Napoleão tendo feito espetáculos em Portugal, Espanha e Malta, uma pequena ilha-nação no Mar Mediterrâneo. Foi aqui que conheceu um representante do vice-rei otomano do Egito Mohammed Ali Pasha.  O Egito passava por grandes mudanças após a falhada invasão francesa liderada por Napoleão de 1798. Foi durante esta invasão francesa que foi encontrada a famosa Pedra de Roseta, que permitiu decifrar os hieróglifos egípcios. Belzoni foi convidado para criar um sistema hidráulico para os esforços de modernização do Egito encetados por Pasha. Este é considerado o fundador do Egito Moderno, tendo desenvolvido as Indústrias militares, mandado realizar missões científicas, criado Escolas superiores e primárias e promovendo a Indústria, Agricultura e o Comércio.

   Na altura, a Grã-Bretanha e a França competiam para levar o maior número de artefactos egípcios para os seus museus. A roda que Belzoni desenhou e construiu, apesar de mais eficiente, falhou e matou um homem que a operava (talvez devido a sabotagem) e ele ficou sem emprego.  Foi nesta altura em que vogava pelas rua do Cairo sem emprego que ele conheceu o recentemente nomeado cônsul inglês Henry Salt (1780-1827) que o contratou para recolher artefactos egípcios. O Cônsul mentiu a Belzoni, dizendo-lhe que ele ia recolher artefactos para o Museu Britânico mas Salt contratou-o a título pessoal para recolher artefactos para a sua coleção privada.

   Assim com 38 anos (1816) ele foi enviado para Tebas  para recolher um dos dois bustos (o mais intacto) de Ramsés II com 7,25 toneladas e 2,67 metros de altura, situado a 8 quilómetros do rio Nilo. Durante a invasão francesa liderada por Napoleão, os franceses tinham tentado e falhado levar o busto, deixando um buraco circular no peito da estátua. Belzoni usou os seus conhecimentos de mecânica e usou 80 trabalhadores locais (depois de subornar o chefe com uma pistola sem balas) para o fazer deslizar sobre troncos como os antigos egípicios o teriam feito. Sob a ameaça das equipas francesas que queriam retirar também o busto, sob a ameaça do sol escaldante que incapacitou Belzoni uma semana por ter perdido a visão devido ao brilho do sol que lhe causou fotoceratite, o busto chegou finalmente à margem do rio Nilo.  Mas nenhum barco tinha dimensões para transportar tão grande estátua por isso Belzoni recolheu mais artefacto durante os meses seguintes. Entretanto os seus homens procuravam um barco grande o suficiente. Voltou em Outubro e embarcou os novos artefactos e o busto. Por ordens de Salt, os artefactos foram deixados no Cairo e o busto foi enviado para Inglaterra, aonde chegou em 1818 e ainda se encontra. Mas Salt não atribui o mérito a Belzoni das descobertas e, mais tarde, vendeu os artefactos ao Museu Britânico como tendo sido ele quem os encontrou.

   Belzoni tinha 39 anos (1817) e decidiu investigar uma cabeça de pedra que sobressaía numa enorme duna de areia numa margem do rio Nilo em Abul-Sinbel. Depois de ultrapassar a dificuldade do calor intenso e da areia deslizante, Belzoni encontrou a entrada do templo no fundo da duna. Era o primeiro ser humano a entrar naquele templo há milhares de anos. Entusiasmado, fez mapas detalhados para o quais fez rigorosas medições e desenhou com rigor. Deixou também a sua assinatura na parede do templo para que o mérito da descoberta fosse apenas dele. Recolheu mais alguns artefactos, completou os seus mapas e diagramas rigorosos e voltou para o Cairo.

   Nesta altura, era já perseguido pelos agentes franceses, tendo escapado a várias tentativas de assassinato. Numa delas, foi perseguido durante a noite por um homem armado que por poucos centímetros falhou um disparo de pistola. Belzoni não tinha uma arma de fogo com a qual responder e aproveitou para fugir. Noutra ocasião, estando a passear de cavalo, foi parado por homens da polícia egípcia a soldo dos franceses que o queriam prender. Não tendo armas com que se vender, usou o chicote que tinha na mão para atingir o chefe do bando e escapar novamente. Quando Belzoni pediu a proteção do Governo Inglês, Salt recusou informando o aventureiro italiano este não trabalhava para o Museu Britânico e era um simples empregado seu.

   Ainda nesse ano, virou de novo a sua atenção para Tebas, desta vez para o Vale dos Reis. Várias vezes tinha sido pesquisado para aferir a veracidade dos relatos de vários faraós estarem lá enterrados mas nenhum estudo sistemático tinha sido conduzido até então. Belzoni usou os seus conhecimentos de hidráulica para estudar o movimento das águas da chuva e os seus conhecimentos de engenharia e encontrou vários túmulos. Em muitos deles, encontra várias múmias ainda intactas (mas os túmulos que encontrou tinham sido pilhados há milhares de anos), as paredes ricamente ornamentadas e muitos  papiros. Foi graças a estas descobertas que a mitologia dos antigos egípcios e os rituais funerários foram finalmente conhecidos e estudados. Um dos túmulos que encontrou (uma lista dos 66 túmulos que existem no vale) foi o de Seti I, pai de Ramsés II cujo busto Belzoni tinha enviado para Inglaterra. Foi neste vale que, em 1922, Howard Carter encontrou o túmulo KV62 do faraó Tutancâmon, que recebeu o nome de Tutancâton quando nasceu. Como visto no artigo Os Medos dos Magos,  o nome refletia a religião monoteísta Atonismo criada pelo seu pai Aquenâton que, a par do Zoroastrismo (o mais antigo monoteísmo ainda praticado como visto em Costa persa) serviu de base filosófica às religiões monoteístas que surgiram mais tarde no Médio Oriente. Foi graças ao trabalho pioneiro de Belzoni que se conhece agora tanto dos Antigos Egípcios.

   Mas, enquanto Belzoni investiga o Vale, Salt ouve  as notícias das descobertas do seu empregado e corre para lá com um casal de dignatários ingleses, fazendo-os crer que tinha sido ele mesmo o autor das descobertas. Chegou, tomou controlo das operações e ignorou Belzoni, que voltou ao Cairo furioso. Lá chegado, vai ao consulado inglês e descobre artigos de jornal louvando Salt pelas descobertas que Belzoni tinha feito e os artefactos que tinha recolhido prontos para serem enviados para Inglaterra assinados por Salt. Ainda hoje o conjunto das relíquias egípcias que vendeu ao Museu é conhecido como a Coleção Salt.

   Belzoni, então já com 39 anos e percebendo que não qualquer vínculo profissional estável, decidiu fazer mais uma investigação. Na altura, pensava-se que as três pirâmides de Gizé eram sólidas. Mas Belzoni,  usando os mesmos conhecimentos científicos que tinha usado no Vale dos Reis, suspeitava que não. Dirigiu-se então à segunda mais alta pirâmide, a Pirâmide de Quéfren e, na face norte, percebeu uma irregularidade  que passou despercebida a outros investigadores. Entusiasmado, Belzoni removeu as pedras que cobriam a entrada. Pensava poder encontrar a a câmara funerária do faraó intacta mas estava vazia, o sarcófago aberto e a tampa de pedra partida e caída no chão. Desiludido, deixou a pirâmide mas antes deixou a sua assinatura para que outras pessoas não lhe roubassem o mérito.

   Quando tinha 41 anos (1819) voltou a Inglaterra e escreveu o livro em dois volumes “Narrative of the Operations and Recent Discoveries Within the Pyramids, Temples, Tombs and Excavations, in Egypt and Nubia“, publicado em 1820, no qual deixa claro o seu papel nas muitas descobertas que fez e desfazendo lendas e mitos que tinham surgido em redor do seu nome (nomeadamente o da sua morte).

   Mas, com 44 anos (1822), a sua sede de aventuras ainda não estava satisfeita e decidiu partir em busca da da nascente do rio Niger e da lendária cidade de Tombuctu, com a sua famosa Madrassa de Sancoré, cuja reputada riqueza e esplendor atraía exploradores europeus à costa ocidental africana desde que foi descrita pelo  famoso diplomata, geógrafo e explorador muçulmano de Granada Leão, o Africano no século XV. Mas, com 45 anos (03/12/1823) Belzoni morreu de disenteria que tinha contraído no segundo dia em que chegou a Benin para iniciar a nova expedição. Estava ainda a 1300 quilómetros da cidade. A sua viúva Sarah morreu de velhice em 1870. Salt morreu em 1827, de uma infeção no intestino, profundamente amargurado pela fama de Belzoni, que Salt sempre descreveu como uma figura secundárias nas descoberta que o próprio Salt tinha feito.