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92. Estrela verde

Na esteira da invasões francesas no início do século 19, o Brasil ganhou a independência no Grito do Ipiranga e um imperador, Portugal perdeu um rei e ganhou uma guerra civil, a cor verde uniu as duas bandeiras e nasceu a expressão “para inglês ver” e o Uruguai.

  Esta é a bandeira Auriverde (amarela e verde) da República Federativa do Brasil, que é o sexto () país mais populoso do mundo, com cerca de 207 milhões de habitantes (Portugal é o octagésimo-sexto (86º) com cerca de 10 milhões e um terço). Ver o artigo Termos ordinais para mais sobre como ler estes números ordinais. A bandeira tem um disco azul com um céu estrelado (em que cada estrela representa um estado brasileiro) com uma faixa branca com o lema “Ordem e Progresso” a verde (a frase ligada à filosofia positivista de Auguste Comte), que está contido num losango amarelo num fundo verde. Esta bandeira nasceu da sua ligação a Portugal e a uma das figuras mais importantes quer da história do Brasil quer de Portugal. O Brasil recorda-o como o Libertador, que deu a Independência ao País em 1822 mas cujo reinado foi cheio de escândalos públicos. Portugal recorda-o como Rei-soldado, o traidor que lutou contra o reino de que seria Rei e deu Independência à sua maior e mais rica colónia mas também que lutou e ganhou a luta para manter a Constituição Liberal contra os ímpetos absolutistas do irmão mais novo D. Miguel.

   Sendo o maior país que tem o Português como língua oficial, a história do Brasil está ligada a história de Portugal e ao príncipe português que foi imperador do Brasil para depois ser rei de Portugal: D. Pedro I (Brasil) ou D. Pedro IV (Portugal), nascido em 1798, um homem cuja vida foi irrevogavelmente alterada pela entrada das tropas francesas de Napoleão no Reino de Portugal em 1807, de que se falou no artigo Legião Laranja. Para escapar às tropas do General Junot, a corte portuguesa mudou-se para o Brasil tinha o príncipe D. Pedro 9 anos.

   D. Pedro era filho do Rei D. João VI de Portugal e Dona Carlota Joaquina, filha mais velha do rei D. Carlos IV de Espanha. Teve uma boa e variada educação, incluindo Matemática, Economia Política, História, Geografia, Latim, Francês, Inglês, Alemão, Música e Equitação. Parece ter sido bom aluno mas também impulsivo e com pouco controlo sobre os seus impulsos e com mais gosto por atividades físicas do que intelectuais. Esta impulsividade terá conduzido ao número elevado de amantes que teve ao longo da sua vida de casado. Para isso também terá contribuído a ausência de laços emocionais com os pais pois cresceu no Palácio de Queluz com os irmãos e a avó D. Maria I, enquanto o pai D. João vivia no Palácio de Mafra e a mãe Dona Carlota Joaquina vivia no Palácio do Ramalhão.

   Em 1817, D. Pedro (com 19 anos) casou por procuração e sem se terem antes conhecido com Dona Maria Leopoldina (1797-1826), filha do imperador Francisco I da Áustria. Chegada ao Brasil, ela conheceu finalmente e enamorou-se do príncipe português, de quem teve sete filhos: Maria (futura rainha Dona Maria II de Portugal), Miguel, João, Januária, Paula, Francisca e Pedro (futuro Imperador D. Pedro II do Brazil). Com Dona Maria Leopoldina vieram colonos suíços do Cantão de Friburgo que se instalaram na cidade de Nova Friburgo, mandada criar por D. João IV em 1818. Dona Maria Leopoldina foi uma incansável lutadora pela independência do Brasil, uma devotada esposa (que resistiu aos sucessivos escândalos sexuais do marido) e uma energética imperatriz, sendo lembrada com estima pelos brasileiros.

   Três anos depois do casamento e tendo as tropas francesas sido definitivamente derrotadas e expulsas da Península Ibérica em 1814, problemas surgiram em Portugal. Em 1820, deu-se a Revolução Liberal em Portugal, feita por militares descontentes com ausência do rei e desejando reformar a Monarquia Absolutista e criar uma Constituição Liberal inspirada pelos ideais da Revolução Francesa. Mas também no Brasil havia movimentos de independência nas províncias do sul do Brasil. D. João IV, dividido entre manter a união do Brasil, de Portugal, a Monarquia Absolutista e o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, decidiu então voltar para Portugal mas deixando o filho D. Pedro como regente do Reino do Brasil. D. Pedro era abertamente liberal e defensor da criação de uma constituição liberal e da abolição da Monarquia absolutista e D. João VI receou que o filho fosse aclamado como rei pelos rebeldes liberais se D. Pedro voltasse a Portugal. A bandeira do príncipe tinha um fundo verde com um losango amarelo, cores ligadas à filosofia positivista de Auguste Comte e também o verde da Casa de Bragança de D. Pedro e o amarelo da Casa Habsburgo-Lorena de Dona Maria Leopoldina. Como visto no artigo Portugal: origens da Bandeira, o verde era associado aos países positivistas e a razão para a sua escolha (a par do vermelho) para as cores do Partido Republicano que instalou a república em Portugal e emprestou as cores à nova bandeira.

   Desejando instalar as sua suas ideias liberais no Reino do Brasil de que era regente, D. Pedro promulgou leis que direitos de liberdade pessoal e de propriedade. Mas as tropas portuguesas e as cortes em Portugal rejeitaram as ideias liberais de D. Pedro e a autonomia do Reino. Indignado com esse comportamento, D. Pedro reuniu tropas brasileiras e declarou a independência do Brasil a 7 de Setembro de 1822, desembainhando a espada com o famoso Grito do IpirangaLiberdade ou Morte“. D. Pedro I foi coroado como o primeiro imperador do Brasil. A independência foi finalmente reconhecida por Portugal em 1825. Nas negociações de paz, o Brasil teve de pagar indemnizações de guerra a Portugal e aceitar as condições da Inglaterra (que terá facilitado as negociações) da abolição do comércio de escravos com África num prazo de 4 anos. Na verdade, o comércio esclavagista  manteve-se mas disfarçado. Para iludir os navios ingleses que fiscalizavam os navios brasileiros, os escravos eram escondidos sobre um porão cuja entrada era tapada por outras mercadorias. Foi assim o nascimento da expressão “Para inglês ver!

   Alguns meses depois, a 10 de Março de 1826, D. João VI, pai de D. Pedro morreu, tornando-o D. Pedro IV, rei de Portugal. Como esta era uma situação indesejável quer para os habitantes do Brasil quer de Portugal, D. Pedro I escolheu ficar no Brasil e abdicar a favor a sua filha Maria, que se tornou Dona Maria II. Mas a abdicação tinha condições: o seu irmão mais novo D. Miguel casaria com a sua filha D. Maria e a Constituição Liberal de D. Pedro, que garantia direitos de liberdade e propriedade aos portugueses, seria aceite e implementada pelo reino. Mas assim que foi nomeado regente (a sobrinha e rainha D. Maria era ainda menor de idade) em 1828, D. Miguel rescindiu a Constituição Liberal em favor de uma Monarquia absolutista. Entretanto, a província Cisalpina, no sul do Brasil, declarou a sua independência e a guerra surgiu. Devastado pela morte da sua esposa Maria Leopoldina ao dar  à lua outro filho, D. Pedro concedeu a independência à Província Cisalpina e nasceu o moderno Uruguai.

   Entretanto, na Europa, os problemas persistiam com o seu irmão Miguel e as suas intenções absolutistas. A grande custo pessoal e emocional, D. Pedro abdicou e regressou a Portugal, após visitar a Inglaterra e a França para ganhar o seu apoio, com um exército para defender os direitos da sua filha D. Maria II e proteger a Constituição Liberal. Desembarcou nos Açores, o único território português ainda leal à causa liberal. Dirigiu-se depois ao continente e ficou sitiado no Porto durante um ano. Após dividir o exército, foi para o Algarve que facilmente dominou e dirigiu-se a Lisboa. A guerra terminava. Mas D. Pedro, nem Imperador do Brasil nem Rei de Portugal, morreu alguns meses depois da vitória com tuberculose, a 24 de Setembro de 1834. A seu pedido, o seu coração foi enterrado na Igreja da Lapa no Porto.