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70. Dias primos

   Uma das várias características interessantes da Língua Portuguesa é o nome dos dias da semana. A maioria das línguas europeias usa as divindades/planetas greco-romanos ou as divindades anglo-saxónicas (germânicas) para nomear os dias da semana. Assim, em Inglês/Alemão/Holandês/Sueco (falou-se na divindade Sater como sendo o deus  Loki no artigo Duplo dia):

   Ou ainda, em Português/Francês/Espanhol/Italiano/Romeno (falou-se na língua romena no artigo Quinta Flor do Lácio),

  Ao contrário de todas as restantes línguas europeias (e, em particular, diferente das restantes línguas românicas como o Francês/Espanhol/Italiano/Romeno), os dias da semana em Português são domingo, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira e sábado. É comum pensar-se que a «-feira» nos nomes se relaciona com «mercado» (são sinónimas) mas, na verdade, é o oposto: era porque decorriam mercados nestes dias que «feira» perdeu o seu significado original e passou a ser sinónimo de «mercado». Originalmente, a palavra «feira» (palavra em latim) eram os dias em que os escravos não eram obrigados a trabalhar para poderem prestar culto religioso e em que os tribunais estavam fechados. Quando o império romano se tornou cristão, os dias de culto religioso passaram a ser os dias em que se ia à missa (evoluções linguísticas semelhantes podem-se notar que a palavra alemã para feira «Messen» se tornou na palavra inglesa para feira «fair»). É de «feria» que sugiram as palavras portuguesas «férias» e «feriado», referindo-se a dias em que não se trabalha.

   Anteriormente, em latim, os nomes dos dias da semana eram designados pelos planetas/divindades Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus e Saturno (dies Sōlis/Lunae/Martis/Mercuri/Jovis/Veneris/Saturni). Depois da cristianização do império, «Sábado» e «Domingo» passaram a ser designados com referência religiosa (tendo os outros dias resistido à alteração). No entanto, dentro da a Igreja Católica, os nomes passaram a ser segunda-feira (segundo dia de culto religioso), terça-feira (terceiro dia de culto religioso), …,  «sábado» e «domingo».

   Também em Portugal, até ao século 6 EC, os dias da semana eram «domingo, lues, martes, mércores, joves, vernes, sábado». Em galego, a nossa mais próxima irmã linguística, os nomes ainda são «domingo, luns, martes, mércores, xoves, venres e sábado». A Galiza e Portugal (anteriormente parte do mesmo reino) foram divididas entre dois primos da Bungúndia: Raimundo e Henrique, respetivamente tio e pai de D. Afonso Henriques. A sua origem comum explica as semelhanças entre o galego (Galiza) e o português (Portugal) e a língua Galaico-Português. No século IV, várias tribos germânicas, fugindo aos hunos, espalharam-se pelo Império Romano do Ocidente: os Francos no que viria a tornar-se a moderna França, Visigodos, Vândalos, Alanos e Suevos na península ibérica, Burgúndios que, vindos da Escandinávia, instalaram-se na região onde é a atual Dijon, perto dos Francos. Aí fundaram o seu reino, a Burgúndia, que existiu até ser anexada pelos reis francos da dinastia merovíngia.

    A Burgúndia, que ocupava sensivelmente a região da Borgonha atual, manteve alguma da sua autonomia dentro do reino franco e tornou-se mesmo um ducado influente dentro do reino, tendo um dos Duques da Borgonha se tornado Rei dos Francos em 923. Da família real burgúndia viria a nascer, em 1035, Henrique, Duque da Burgúndia. Teve um total de 7 filhos, tendo o mais novo, nascido em 1066, recebido o nome do pai, Henrique. Como filho mais novo, nunca herdaria o Reino da Burgúndia, pelo que abandonou a sua casa, em 1090, para acompanhar o seu primo, Raimundo da Burgúndia, que se vinha casar com a filha mais velha do Rei de Leão e Castela de nome Urraca (não confundir com D. Urraca de Castela), com 12 anos. Tendo-se juntado a Afonso VI de Castela e Leão na Reconquista Cristã na Península Ibérica, Henrique destacou-se na luta contra os Mouros, a grande maioria não era Árabe, como referido no artigo Península de Ismael. Árabes são os oriundos da Arábia e a maioria dos conquistadores muçulmanos, i.e., que professavam o Islão, eram oriundos de Norte de África, da região conhecida pelos Romanos como Mauritânia. Daí o nome do país e também o de Mauros, que se tornou em Mouros. Camões, nos Lusíadas, refere-se aos Mouros como Mauros e eis o porquê.

   Pelos seus feitos, D. Afonso VI de Leão e Castela deu-lhe a mão da sua filha bastarda Teresa (Tareja em Galaico-Português) em casamento. O primo de Henrique, Raimundo da Burgúndia, casado com Urraca de Castela, tinha-se tornado Conde da Galiza, Conde de Portugal (Condado portucalense) e Conde de Coimbra. Afonso VI, como recompensa pelo valor de Henrique na Reconquista, separou, em 1093, a Galiza em duas: o norte ficou para Raimundo e o sul (Condado Portucalense e o Condado de Coimbra, para Henrique. Desde essa altura que as duas regiões (o Norte de Portugal e a Galiza), partilham uma herança comum, reforçada pelo sangue de dois primos divididos.

   Mas, no século 6 DC, o Bispo de Braga (na altura, capital do Reino Suevo na península ibérica), de nome Martinho de Dume (ou de Braga), nascido na Hungria, achando inapropriado que os dias da semana tivessem designações da mitologia pagã greco-romana, espalhou a designação litúrgica católica dos dias da semana por entre os crentes do seu bispado. Ainda tentou que esta mudança fosse adotada por outros reinos cristãos mas sem sucesso. Dume é uma aldeia próxima da cidade de Braga. Por isso, Portugal (nascido do condado portucalense situado no antigo reino suevo), passou a ser a única língua românica a não ter os seus dias designados de acordo com a mitologia romana ou germânica (ainda que fosse de esperar que na Galiza a alteração se tivesse dado também).

   Uma boa consequência foi a facilidade com que os dias da semana são geralmente abreviados em português: 2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª e 6.ª. E fica claro que o primeiro dia da semana é domingo já que depois é o segundo, o terceiro,…  Noutras línguas, não se torna assim tão linear, o que levou à adoção da norma ISO 8601 (respeitante à representação de datas e de nomes) pela Organização Internacional de Padronização (ISO em inglês) que estipula que os dias do ano são escritos no formato aaaa-mm-dd (2017-10-23, por exemplo) e o primeiro dia da semana é domingo (o que encaixa bem nos países lusófonos).