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155. Copos e bolotas

A viagem ao longo da História das cartas de jogar, da China ao Egito, dos Mamelucos aos Portugueses, de Portugal até ao Japão, a sua ligação aos jogos eletrónicos e porque os símbolos dos naipes portugueses não são os dos seus nomes.

Características físicas
   Mesmo quem não jogue já  terá visto baralhos de Cartas de Jogar. Uma Carta de Jogar é feita com camadas retangulares de cartão fino para formar uma película achatada e semirrígida. Tem um tamanho e forma uniformes para várias poderem ser agarradas com uma só mão geralmente em leque para permitir a sua identificação. Um dos lados é decorado de forma a distingui-la das restantes e o outro lado tem um padrão comum a todas e os cantos são ligeiramente arredondados para prevenir o desgaste. É usada num conjunto (baralho) para fazer jogos, para fazer truques de magia e prestidigitação, para efeitos educacionais, para adivinhação e ocultismo.

Os quatro naipes
   Uma das curiosidades inerentes aos símbolos principais que dividem as Cartas de Jogar em quatro grupos é o seu nome em Português. Os nomes não descrevem a forma que cada um parece ter pois as espadas (♠) parecem folhas de árvore, as copas () parecem corações, os paus (♣) parecem trevos de três folhas e os ouros () parecem um losango de lados curvos. A razão de assim ser liga-se à história milenar desta forma de recreação.

Origem: China
    A primeira referência que se conhece a Cartas de Jogar vem do século X na China, em que há referências a jogos com «placas» (牌 - Pái), quer dominó/mahjong (Gǔpái, de 骨 - Gǔ «osso» e 牌 - Pái «placa») quer cartas de jogar (Zǐpái, de 紙 - Zǐ «papel» e 牌 - Pái «placa»). Daqui, os Jogos de Cartas chegaram ao vizinho Império Corásmio Persa no século XI. As cartas estavam já divididas em quatro grupos, tendo cada um 12 cartas cada,  sendo as duas de maior valor o (rei) e o seu vizir (conselheiro/ministro) e as restantes as cartas numéricas de 1 a 10. Diferentes baralhos apresentavam temas diferentes e nomes diferentes para os grupos havendo alguns que incluíam ainda as moedas, bastões, taças e espadas do dominó chinês.

Cartas muçulmanas
Estas cartas persas inspiraram depois, no século XII,  a criação das cartas pelos Mamelucos no Egito e Síria mas sem figuras. Elas eram descritas textualmente para não violarem a proibição muçulmana da representação da figura humana. Por esse motivo, o seu nome é conhecido: Darahim (Dinheiro), Touman (Taça), Suyufu (Espada) e Jaukan (Bastão de Polo) e as cartas de 1 a 10 e ainda o malik (rei), o nā’ib malik (vice-rei) e o thānī nā’ib (segundo vice-rei). Há relatos europeus da altura de um jogo de cartas muçulmano chamado naib, de onde derivou o termo português (e espanholnaipes, o francês nahipi (modernamente chamado enseigne) e o italiano naibi para os quatro grupos  em que o baralho se encontra dividido, cada um com os seus naibes, as cartas mais poderosas.

Cruzadas
   Entre 1096 e 1291, as cruzadas cristãs contra os muçulmanos durante a Idade Média levaram soldados europeus até ao Médio Oriente e ao contacto com as  Cartas de Jogar. Os soldados europeus levaram depois o jogo para a Europa Central (Alemanha, Suíça) quando regressaram. Também na Península Ibérica o contacto com os reinos muçulmanos trouxe o jogo para Portugal, Espanha e França. Entre os anos 1000 e 1400, o Califado Omíada, que tinha conquistado o Norte de África e a Península Ibérica, colapsou. Na Península Ibérica, os Reinos Cristãos unem-se na luta contra os Muçulmanos e expandiram o seu território através da Reconquista Cristã. Ver o artigo Península de Ismael. Foram   cruzados a caminho  do Médio Oriente  pertencentes  à Segunda  Cruzada  (1147-1149)  quem ajudou o rei português D. Afonso Henriques a conquistar a cidade muçulmana de al-Ushbūn  الأشبونة  em 1147, que viria a ser a capital do Reino de Portugal em 1256 com o nome Lisboa.

Baralho francês e Baralho alemão
   O comércio italiano no Mar Mediterrâneo foi outra porta de entrada das Cartas de Jogar Muçulmanas na Europa. Deste contacto europeu com as Cartas de Jogar muçulmanas surgiram as duas principais variedades de cartas europeias: o Baralho Latino (Portugal, Espanha, França e Itália) e o Baralho Germânico (Alemanha, Suíça, Inglaterra). No baralho latino, os 4 naipes eram Taças (Copos), Moedas (Dinheiro),  Espadas e Paus. No baralho germânico, os 4 naipes eram Corações, CampainhasBolotas e Folhas.

Bolotas
   As bolotas são os frutos das árvores conhecidas como carvalho, das quais existem cerca de 600 espécies diferentes e que fazem parte da família das Fagáceas (onde se incluem também as castanheiras e as faias). As espécies mais conhecidas em Portugal são o Sobreiro (Quercus suber) de onde se extrai a cortiça, a Azinheira (Quercus ilex) e o Carrasco (Quercus coccifera) de que se alimenta o inseto Kermes vermilio que deu o nome à cor «vermelho», como visto no artigo Palavras coloridas. Era o corante vermelho extraído das fêmeas deste inseto que era usado para colorir as Cartas de Jogar de Ouros e Copas. O nome «bolota» vem da palavra árabe بلوط «bilut/bulut» que designa a árvore e o fruto. As bolotas do baralho germânico são os frutos do Carvalho-comum (Quercus robur) comum na Europa Central. A organização ambientalista portuguesa Quercus tem este nome e usa como símbolo uma bolota devido ao nome latino destas árvores.

Simplificação das cartas
   Inicialmente, as Cartas de Jogar eram pintadas à mão e só pessoas ricas podiam tê-las. Mas, em 1480, os Franceses adotaram o esquema de duas cores (vermelho e preto) para facilitar a sua impressão em série e sobressaírem no fundo branco das cartas. Simplificaram também os desenhos de cada naipe, adotando o desenho alemão de uma folha para substituir a figura mais longa da espada, uma forma em diamante para substituir as mais complexas moedas, o coração alemão para substituir a ornamentada taça e um trevo em vez de um longo bastão.

Baralho português
 Até ao final do século XIX, em Portugal usava-se o Baralho Latino (vertente espanhola). Quando, no início do século XX, Portugal adotou o Baralho Francês os desenhos dos naipes foram modificados para o grafismo francês mas preservou-se os antigos nomes dos naipes latinos. Por isso agora os corações franceses têm o antigo nome Copas,  as folhas alemães têm o antigo nome  Espadas, os trevos franceses têm o antigo nome Paus e os diamantes franceses têm o antigo nome Ouros. As cartas individuais também sofreram alterações pois os Ases perderam o desenho de um dragão, o Rei passou a ser representado em pé, o Cavaleiro passou a ser a Dama e ambos passaram a ser representados com as iniciais inglesas do seu nome (King para o Rei e Queen para a Dama/Rainha) e o Servidor do cavaleiro mudou de nome e aparência para o camareiro francês, o Valete. Estas figuram passaram a ser representadas por uma única letra em vez das iniciais do nome da figura e do naipe. Por exemplo, usava-se CC para o Cavaleiro de Coppe (copo), CD para o Cavaleiro de Denari (dinheiro), CB para o Cavaleiro de Bastoni (bastão) e CS para o Cavaleiro de Spadas (espadas). Em 1769, a Real Fábrica de Cartas de Jogar foi inaugurada em Lisboa para produzir cartas e introduziu algumas mudanças como pôr em pé o Rei. Quando a produção de cartas parou em 1870, a manufatura das cartas mudou para a Bélgica e para a Alemanha e mais alterações gráficas foram introduzidas para uniformizar as cartas portuguesas com o padrão internacional.

Japão
   Durante os Descobrimentos Portugueses, foi o Baralho Português (inspirado no Espanhol) que os marinheiros usavam e espalharam pelo mundo. Como visto no artigo Japão Português, em 1542, um desembarque acidental trouxe navegadores portugueses até ao Japão. Depois, em 1549, o missionário português Francisco Xavier desembarcou no Japão. A tripulação do seu navio trouxe um Baralho Português com 48 cartas e o jogo e as apostas tornaram-se populares no país. Estas cartas são conhecidas como «karuta» (da palavra portuguesa «carta») ou «toranpu» (da palavra portuguesa «trunfo», que vem da mesma raíz latina de «triunfo») devido ao uso emocionado que os marinheiro faziam desta palavra quando jogavam. Quando o Japão fechou as fronteiras ao Mundo Ocidental em 1633, as Cartas de Jogar ocidentais foram proibidas. Mas as palavras portuguesas referentes ao jogo mantiveram-se na língua japonesa. Palavras como karuta 加留多  de «carta», toranpu トランプ de «trunfo» ou pau ぱう de «paus», isu いす de «espadas» (semelhante sonoramente a «cadeira» em Japonês), koppu コップ de «copas» , ōru おうる de «ouros» (semelhante sonoramente a «coruja» em Japonês), rei れい de «rei», kaba かば de «cavaleiro» (semelhante sonoramente a «hipopótamo» em Japonês) ou sōta そうた, o servidor do cavaleiro.

Baralho Japonês
O baralho português tinha espadas longas e compridas que se cruzavam, ao contrário das espadas italianas curtas e curvas ou das espanholas curtas, direitas e que não se cruzavam. O naipe de paus entrecruzava-se, era longo e de largura variável.  O número de cartas era de apenas 48 por remoção das cartas 10 de cada naipe e a figura menos valiosa era a de sōta, equivalente à carta italiana fante (a mesma raíz da palavra infantaria) mas feminina. Os ases tinham dragões e foram estas as características do primeiro baralho japonês, o Tenshō karuta 天正かるた. Em 1572 começou uma nova era no antigo calendário japonês, a Era Tenshō 天正 (1573-1592), e a vila de Miike (a 62 quilómetros de Nagasaki, na moderna cidade de Omuta) começou a fazer os primeiros baralhos japoneses claramente inspirados no português mas com desenhos japoneses. Este baralho japonês de inspiração portuguesa foi feito até à proibição das cartas de jogar ocidentais até ao século 17.

Novas cartas japonesas
 Na segunda metade do século 17, um novo baralho japonês surgiu, reforçando as características japonesas das cartas tenshō, as unsun karuta うんすんかるた. Um quinto naipe (guru ぐる representado por uma roda com três divisões) foi introduzido e cada naipe passou de 12 cartas para 15,  os Áses com dragões são divididos nas cartas de Ás e Dragão, o sōta torna-se na rainha e duas novas figuras surgiram (un うん e sun すん). Um outro baralho surgido mas no século 19 foi o Hanafuda karuta 花札 “Cartas de flores”. A empresa de jogos eletrónicos Nintendo, fundada em 1889, começou por produzir estas cartas e ainda agora o faz mas só para o mercado japonês.