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135. Pretéritos compostos

É «tinha aceite» ou «tinha aceitado»? É «se eu poder» ou «se eu puder»? Uma curta viagem ao Particípio passado dos verbos e quando se deve usar uma forma ou a outra. 

   Há situações no uso do Português que levantam tanto dúvidas como esclarecimentos incorretos. Frases como «E se te oferecessem flores?» a que é dada a resposta «Teria aceitado» muitas vezes será corrigida para «Teria aceite.» Parece soar melhor mas a forma correta é «Teria aceitado». Mas se a pergunta fosse «Se flores fossem oferecidas?» a resposta correta seria agora «Seriam aceites». A diferença entre as duas tem a ver com os verbos usados. Este tipo de construções verbais, em que dois verbos se combinam harmoniosamente como dois amantes separados que após anos se reencontram, chama-se tempo verbal composto.

   Geralmente os verbos são usados com um tempo simples (Eu vou à loja e comprarei fósforos). Mas há ocasiões em que é necessário articular dois verbos para compor corretamente uma frase. Usa-se, nestes casos, verbos auxiliares associados a um verbo principal no particípio passado. Como exemplos de verbos auxiliares do Pretérito passado há ter, haver, ser, estar, ficar. E é nos verbos auxiliares usados no particípio passado que está a diferença entre usar «aceitado» e «aceite». Eu tenho escapado à tristeza, ele havia matado  a mosca, eu fui expulso do clube, tu estás liberto, ela ficou limpa.

   Há duas formas de particípios passados para um dado verbo, a forma regular e a forma irregular. O Particípio passado regular é formado pela junção do sufixo ado ou ido (Matar - matado; limpar - limpado), o Particípio passado irregular não tem, claro está, regra de formação (Matar - morto; limpar - limpo). Quando o verbo auxiliar é ter ou haver o verbo principal assume o particípio passado regular (Eu tenho passado pela loja; Ele havia libertado os prisioneiros quando cheguei). Quando o verbo auxiliar é ser ou ficar ou estar o verbo principal assume o particípio passado irregular (Eu sou afligido por preocupações; Ela ficou acesa; Tu estás completo).

   O Particípio passado do verbo aceitar é aceitado na forma regular e é aceite na forma irregular. Na frase «Eu teria aceitado» o verbo auxiliar é «ter» e como tal o verbo principal assume a forma regular. Dizer «Eu teria aceite» é incorreto face a esta regra. Mas há verbos que têm apenas o particípio passado irregular, verbos como abrir (aberto), cobrir (coberto), dizer (dito), escrever (escrito), fazer (feito), pôr (posto), ver (visto), vir (vindo). Estes verbos, independentemente do verbo auxiliar, são sempre usados no partícípio passado irregular uma vez que não há a forma regular. Exemplos da aplicação desta regra podem incluir: «Eu tenho aberto as minhas perspetivas de vida» (ter+p.p. irregular), «O meu treino está completo e tenho completado o meu horário (estar+pp irregular; ter+pp regular), ela haveria apreciado as flores (haver+pp regular).

   Outro problema que surge às vezes com os tempos verbais compostos é a conjugação do verbo auxiliar Haver. É por este desconhecimento que, por vezes, surgem verdadeiros atentados como «eles hadem vir.» A forma correta era «Eles hão de vir». Com o AO, é «hão de» já não requer hífen. Falou-se na necessidade do Acordo Ortográfico desde a Implantação da República no artigo Phases e das palavras com hífens no artigo Imanes acentos.

   Fazendo então um resumo breve, Ter e Haver – verbo principal no Particípio passado na forma regular (ado, ido); Ser, Ficar e Estar – verbo principal no Particípio passado na forma irregular. E eles são o verbo auxiliar do outro, tinha havido e havia tido.

   Um outro verbo, utilizado noutros tipos de conjugações verbais compostas, é o verbo «Poder». Saber quando é «poder» e quando é «puder», quando se usa «o» ou «u» é um problema diário para muitas pessoas. A regra geral é que se deve usar o «o» exceto nos quatro tempos verbais Pretérito perfeito do Indicativo, Pretérito mais-que-perfeito do Indicativo, Pretérito imperfeito do Conjuntivo e Futuro do Conjuntivo. Assim, corretamente escrever-se-á: «Eu vou poder ir à festa» e «Quando eu puder ir à festa». Em caso de dúvida opta-se pelo «o», excepto nos tempos verbais, do Modo Indicativo : Pretérito-perfeito (pude) e Mais-que-perfeito (pudera), e nos tempo do Modo Conjuntivo: Pretérito Imperfeito (se eu pudesse) e Futuro (se eu puder, quando eu puder). É sempre relevante sublinhar a diferença entre «pode» – Presente, 3.ª pessoa – e «pôde» – Pretérito Perfeito, 3.ª pessoa. Mais um caso em que a acentuação faz toda a diferença. E «Poder» como substantivo é sempre com «o».