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156. Janela fascinante

As influências de uma pequena palavra de um povo na península itálica que antecedeu os Romanos, que lhes introduziu o gosto e admiração pela cultura grega, deu-lhes o alfabeto, o sistema numérico, vocabulário que se estende até às modernas línguas europeias, deu-lhes o sistema judicial. A região que habitavam foi uma liga, uma província, um reino, um ducado, uma marca, um grão-ducado e guarda arte importante da Europa e a sua língua e cultura ainda agora influenciam o Mundo. Liga-se a uma palavra unicamente portuguesa entre as línguas e deu também o nome à primeira ideologia de extrema-direita e a uma componente muito importante do corpo humano. 

   Surgido a partir de uma pequena cidade na península itálica, o Império Romano cresceu até ter uma área máxima de 5 milhões de quilómetros quadrados (3,7% da área à superfície do planeta) e conter 57 milhões de pessoas dos 195 milhões que se estima existirem no Mundo nessa altura (11,4%).  Mas, para o enquadrar devidamente, o Império Britânico, na sua maior extensão em 1920, após a I.ª Guerra Mundial, controlava 26,35% da área à superfície do Mundo.  Na sua maior extensão, o Império Português, em 1820, aquando da anexação do Uruguai na colónia portuguesa do Brasil, controlava 4%.

   A cidade de Roma surgiu no extremo sul do reino Etrusco, uma civilização que existiu no centro da península itálica  entre 900 e 100 AEC. A mitologia romana indica que o nome da cidade surgiu de um dos seus fundadores (Rómulo), descendente de um sobrevivente da Guerra de Troia (de que se falou emDecisões em Troia) mas uma origem menos mitológica indica virá da palavra etrusca 𐌓𐌖𐌌𐌀 (ruma), que vem da raíz etrusca rum- “teta”, uma referência ou à célebre loba que alimentou os gémeos Rómulo e Remo ou à forma das colinas onde se situava, a Colina Palatino e a Colina Aventina, duas das 7 colinas de Roma. Palatino era uma das três colinas sobre a qual Nero construiu a sua Casa Dourada,  que inspirou visualmente a Renascença, como visto em Grotesco coliseu.

   O reino etrusco era uma federação de cidades-estado, a Liga Etrusca, inicialmente formada por Felathri (atualmente Volterra), Perusia (atualmentePergusia) e Latium que se expandiu em 750 AEC formando uma federação de 12 cidades-estado etruscas (Lega dei popoli).   Os Etruscos chamavam-se a si mesmos Rasenna, (encurtado para Rasna mais tarde) enquanto os Romanos lhes chamavam Tuscī ou Etruscī  (razão porque chamaram à região Tuscânia). Já os Antigos Gregos chamavam  Tirrenos «Τυρρηνοί» aos Etruscos. Uma das cidades fundadas pelos Etruscos foi Adria, que viria a dar ao mar que a banha, o Mar Adriático, e a cidade de Alalia (atualmente Aléria), agora parte da ilha francesa da Córsega (onde nasceu Napoleão, como visto em Legião Laranja) situada no Mar Tirreno, que deve o seu nome ao  que os Antigos Gregos davam aos Etruscos.

   Os Etruscos falavam um língua diferente do Latim e do Grego, ainda que tenha influências de ambas e usavam um alfabeto inspirado no alfabeto fenício.  A língua era escrita e lida da direita para a esquerda e os Etruscos chamavam-lhe Mekh (língua) Rasnal (etrusca). Foram eles quem introduziu na península itálica o alfabeto, a cultura, a mitologia grega que tanto inspiraram os Romanos. Quando  visto da direita para a esquerda, é possível ver como o alfabeto etrusco serviu de inspiração ao alfabeto latino que usamos ainda hoje. A última pessoa que se sabe falava e escrevia fluentemente etrusco foi o Imperador Cláudio (de que se falou em Letras de Cláudio), de que há relatos que escreveu um dicionário Etrusco-Latim e uma gramática etrusca ainda que nenhuma das suas obras tenha sobrevivido até aos dias de hoje.

   Várias palavras gregas que os Etruscos introduziram na península itálica ou palavras de origem etrusca foram incorporadas no Latim e, através deste, no vocabulário da língua portuguesa. Palavras como antena, do etrusco «anti(th)emna» – vela – adaptada da palavra grega ανάτηθήμένος «anatithēmenos» «configurado/montado». Ou elemento, pela substituição etrusca de φ «ph/f» por «m»  a partir da palavra grega eléfantas ελέφαντας «elefante» ou ελεφαντόδοντο elefantódonto «marfim» ou «dente de elefante». Também histriónico, a partir do etrusco “istro” (ator). Chamavam à Terra “munth” (terra) que  os Romanos incorporaram como “mundus”,  o que deu Mundo em Português. Igualmente a palavra portuguesa Palácio tem  origem etrusca, a partir da Deusa etrusca dos pastores Pales,  que era festejada a 21 de Abril, data da fundação de Roma, na Parília. Pessoa é a palavra portuguesa  que vem do Latim «persona» (máscara), a partir da palavra etrusca «phersu» com o mesmo significado.

   O nome da cidade de Roma, berço do império  romano,  poderá ainda vir alternativamente do etrusco ‘Ruma’ (o nome da tribo etrusca que vivia na região) ou de “Rumon”, o nome etrusco  para o rio que atravessa a cidade, o rio Tibre.  A palavra portuguesa Satélite também vem do etrusco «satnal» que derivou na palavra latina «satelles», ambas significando “guarda-costas”. As  palavras portuguesas Triunfo e a sua derivada nos jogos de cartas Trunfo (de que se falou no artigo Copos e bolotas) que vieram do Antigo Grego θρίαμβος «thriambos», um hino ao deus grego Dioniso, a partir da palavra θρῖον  «thríon» que significa «trono», tendo sido incorporada pelos Etruscos e, através deles, pelos Romanos.

   Também o mês de Fevereiro, através do Latim, recebeu o seu nome do deus etrusco do submundo Fébruo e Abril vem do nome etrusco para o mês “Apru, Aprun, Apira”. Até a palavra «aluno» que recebemos do Latim vem do Etrusco “alumnuathe” com o significado de «criança adotiva». Há muitas outras palavras latinas que nos chegaram vindas do Etrusco (athre>átrio, baca>baga, bassua>baixo, bonus>bom, caerimônia>cerimónia, carcer>cárcere, cela, cisterna, crucra "tormento/dor">cruz, copo/copa, curuna>coroa, duellum>bellum>duelo/bélico, lachrima>lágrimas,  lanterna, lentis>lentos, macst>magistrado, macstre>mestre, militia>militar,...). Mesmo o sistema numérico romano foi adaptado do Etrusco. Por exemplo, “ci-em zathrum” é dezassete, literalmente “três (ci) menos de vinte (zathrum)”.

   Uma palavra etrusca com curiosas ligações a várias línguas europeias, incluindo o Português, era a palavra “fnestra” que os Romanos incorporaram no Latim como «fenestra». Daqui evoluiu para o  Italiano «finestra», o Francês «fenêtre»,   o Romeno/Moldavo «fereastră» (falou-se nesta língua latina em Quinta flor do Lácio), mesmo para línguas germânicas como o Alemão «fenster» ou o Holandês «venster» (a Holanda é apenas parte do país também conhecido como Países Baixos, de que se falou em Novas e Demónios). Esta palavra etrusca corresponde a «janela» em Português.  A palavra portuguesa descende realmente do Latim mas da palavra para porta «janua». Uma porta pequena  era «januela» e daqui  veio a «janela» portuguesa. Já a palavra «porta» era a palavra em Latim para «portão», que sofreu a mesma alteração de significado de «portão» para «porta» no Espanhol «puerta», no Francês «porte» e no Italiano «porta». Já em Latim, a palavra para «porta» era «ustia», o que deu origem ao Romeno «uşă» («portão» em Romeno é «poartă» como em Latim). Em Indonésio, a palavra janela é jendela, importada  diretamente da portuguesa.
Existe uma curiosa ligação de significado entre a palavra para «janela» em Espanhol «ventana» e a palavra em Inglês «window». Ambas derivam de «vento» já que, até à invenção das janelas de vidro, era por aí que ele entrava nas casas, sendo em Germânico «wind-auge» , que significa «Olho do vento».

   As palavras fascinante, fascíniofascinar vêm dos amuletos mágicos usados em encantamentos ligados ao deus romano Fascinius.

   Mas a influência etrusca na cultura romana estendeu-se além do vocabulário ou da aritmética. No campo judicial, há influências nas instituições políticas. Um feixe é uma palavra latina de origem etrusca que significa reunião de várias coisas da mesma espécie, ligadas na direção de seu comprimento, atado, molhe. Este é um Fáscio,  um feixe de varas com um machado no seu centro. Era usado pelos juízes etruscos como forma de punição corporal. O fasces lictori (fáscio de lictor, um oficial subalterno de um magistrado) simbolizava poder e autoridade em Roma desde o seu início como cidade etrusca, durante a República e no período imperial. Os lictores levavam cada  um fasces e precediam magistrados em número correspondente ao cargo destes (um ditador e, mais tarde, um Imperador tinham 24 lictores com fasces, um  cônsul tinha 12, um procônsul 11, um pretor 6, um propretor 5 e cada  edil curui 2). As marchas triunfais (inicialmente em honra a Dioniso e mais tarde a Júpiter) pela cidade após uma vitória militar eram precedidas por lictores. As varas representavam união e força (uma só vara parte-se facilmente mas um feixe delas não) enquanto o machado indicava que o poder judicial do magistrado incluía castigos corporais e a pena capital. Os 3 reis etruscos de Roma tinham um lictor por cada uma das 12 cidade-estado etruscas que compunham a federação. Mas o simbolismo do fasces perdeu o seu significado cultural  e judicial com a queda do Império Romano (do Ocidente) no século V às mãos de Odoacro até ser recuperado pelo Fascismo italiano no século 20.

   Nos muitos séculos que se passaram entre os dois momentos, a península italiana esteve dividida em vários estados, cada um foi desenvolvendo a sua cultura, língua e tradições.

   Com o colapso dos romanos, os Ostrogodos derrotaram Odoacro, ocuparam a península (asfixiando a antiga pátria etrusca) e tornaram-na parte do seu reino. Durante a Guerra Gótica (535-554), a península foi reconquistada pelo Império Romano (do Oriente) sob a direção do imperador Justiniano. Mas, no ano 572, os Lombardos aproveitaram o desgaste e a despovoamento da península devido à guerra chegaram e conquistaram-na, dividindo-a em vários ducados.  Um deles era o Ducado de Tuscia, que ocupava a região do anterior Reino Etrusco e recebeu assim o nome deles (Tuscī). No ano 1000, a península itálica continuava dividida e a antiga Etrúria era a Marca da Toscana (Marca é a região controlada por um Marquês) e o Reino Lombardo reduziu-se à região a norte da Toscana, que ainda agora ostenta o nome de Lombardia. Em 1799, Napoleão Bonaparte invadiu e ocupou a península e criou o Reino da Etrúria prometido aos Espanhóis em troca da sua participação na invasão francesa de Portugal durante a Guerra Peninsular (de que se falou no artigo Legião Laranja) e o retorno a França da Luisiana no continente americano. Um ano após a devolução da Luisiana a França, Napoleão vendeu toda a região aos EUA por 80 milhões de francos franceses, cerca de 300 milhões de euros em 2019, na chamada Compra da Luisiana.

   Em 1883, Itália só era um país unido há 13 anos, quando a península itálica dominada por potências estrangeiras (principalmente a Áustria) foi unida sob o Rei da Sardenha Vitor Manuel II durante o Ressurgimento italiano (1815-1871). Nesse ano, nasceu Benito Amilcare Andrea Mussolini, filho de um socialista anti-clerical e de uma professora muito católica e essa dualidade marcou-o ao longo da vida. Sempre turbulento na escola tornou-se ainda assim professor como a mãe e tornou-se colunista e diretor de um jornal socialista. Em 1915, a Itália entrou na I.ª Guerra Mundial (de que se falou em Trégua de Natal e Grande Gripe)  ao lado dos Aliados (Grã-Bretanha e França) contra a Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano. Inicialmente contra a entrada da Itália na guerra, Mussolini mudou de ideias e passou a advogar a participação italiana na guerra. Isso valeu-lhe a expulsão do partido e a recruta para o exército. Durante 9 meses lutou contra o exército austríaco até ser ferido pela explosão acidental de uma granada italiana. Na altura, vários grupos políticos lutavam para ganhar poder político na Itália recém-monárquica de governo socialista. Um desses grupos era um de extrema-direita liderado por Mussolini. Reunindo os outros grupos de igual orientação política, Mussolini fundou o partido fascista (que viria em 1921 a assumir o nome Partito Nazionale Fascista ou PNF), usando a imagem do Fáscio romano para simbolizar essa união. Estava montado o palco para a entrada de Itália na II.ª Guerra Mundial.

   E a palavra etrusca tornada romana deu também o nome a uma estrutura no corpo humano por baixo da pele e que também rodeia, protege, individualiza órgãos, vasos sanguíneos, ossos, nervos e músculos e liga-os no todo que é o corpo. É a Fáscia,  a banda ou feixe de tecido constituído principalmente por colagénio. As diferentes camadas de fáscia são classificadas pelacamada onde se situa ou pela sua função e localização anatómica. A fáscia que cobre e protege pleura que envolve e protegem os pulmões, o pericárdio que envolve e protege o coração, as meninges que envolvem e protegem o sistema nervoso e o tecido miofascial (de mio «músculo» + fáscia «tecido conectivo») que envolve os músculos e que tem sido estudada para desenvolver um tratamento eficaz para dores e outros distúrbios físicos do corpo usando a libertação miofascial.