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125. Galões pacíficos

A primeira viagem à volta do Mundo que liga galáxias ao navegador português que uniu o Mundo para os espanhóis, a bebida com café portuguesa, as galáxias satélites da nossa, a expedição ao outro lado do mundo, as ilhas cujo nome começa por F que não existe nas mais de 170 línguas do arquipélago, a língua mais distante de Portugal e Espanha que partilha cerca de 1/3 das palavras com estas línguas. 

   O céu e as estrelas sempre fascinaram a Humanidade e serviram de inspiração a mitos e religiões. Perante a beleza e a complexidade do que viam, os Seres Humanos procuraram reduzir os fenómenos que observavam às suas limitações e conhecimentos. A Astrologia, de que se falou no artigo 13 sinais sobre os 13 signos do Zodíaco, foi uma dessas tentativas. A personificação de objetos estelares na forma de divindades, como a Lua de que se falou no artigo Cabeça na Lua. Mas, da mesma forma que a Lua se apresenta de forma diferente no Hemisfério Norte e no Hemisfério Sul, também as estrelas e as imagens e divindades imaginadas nelas são diferentes em ambos os Hemisférios, das palavras do Antigo Grego ἡμι – hēmi «meio» e σφαῖρα – sphaîra «esfera».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Quando, no início do século XVII, Galileu utilizou o recentemente criado telescópio (cujo pedido de patente foi feito em 1608 pelo fabricante de dispositivos óticos alemão Hans Lippershey) para estudar os céus, deu início à revolução científica, em que a base dos conhecimentos e teorias já não eram as palavras e ideias de autoridades religiosas ou pensadores do passado mas sim a observação e o uso do Método Científico. Algumas das observações astronómicas que fez permitiram-lhe constatar, em 1610, que a Via Látea era constituída por muitas estrelas individuais. A Via Látea é a galáxia a que o sistema solar onde habitamos se localiza. Os Antigos Gregos chamavam-lhe γαλαξίας κύκλος galaxías kýklos “círculo leitoso”. A partir do nome grego, surgiu a palavra galáxia que vem do Antigo Grego (e Grego moderno também)  γάλα gála “leite”, de onde também a palavra galão, devido à quantidade de leite que tem, uma bebida com 1/4 café e 3/4 leite com espuma, servida bem quente num copo alto e originária e popular em Portugal.

   Uma das muitas diferenças observadas no céu entre os Hemisférios Norte e Sul é o de galáxias pequenas, chamadas Nuvens de Magalhães, que se podem observar no Hemisfério Sul e até à Latitude 20º Norte. Abaixo da latitude 20º Sul, as Nuvens de Magalhães são visíveis o ano todo, entre os 20º Norte e os 20º Sul só em parte do ano. Perto da latitude de 20º Norte, só são visíveis alguns minutos antes de desapareceram para lá do horizonte e, entre o Equador e a latitude 20º Sul entre Dezembro e Abril. Esta localização no céu mantiveram-as desconhecidas no Hemisfério Norte como a Europa, Médio Oriente, Norte de África e  China, as regiões onde as principais Religiões e a Astrologias surgiram (ver o artigo Os Medos dos Magos sobre as primeiras religiões monoteístas). Mas fizeram parte da cultura e lendas de vários povos do Hemisfério Sul como os Khoisan da África do Sul, os Aborígenes australianos ou Polinésios que navegaram e colonizaram o Pacífico Sul. 

   São duas galáxias pequenas de forma irregular (tÊm um décimo da massa da nossa galáxia, a Via Látea), que parecem serem satélites da nossa (ainda que medições em 2006 pelo telescópio espacial Hubble da sua velocidade pareçam excluir essa hipótese). As Nuvens de Magalhães estão a ser deformadas e desfeitas pelas suas interações gravíticas com a nossa galáxia e as suas estrelas estão gradualmente a serem incorporadas na Via Látea.

   A primeira referência escrita na cultura do Hemisfério norte vem do século 9 pelas mãos do pensador e investigador árabe Ibne Cutaiba e, um século mais tarde, pelo seu conterrâneo Al-Sufi, que as referiu e relatou que podiam apenas ser observadas brevemente na ponta sul da Arábia. Na Europa, as primeiras referências escritas surgiram no século 16 pelos italianos Pietro Martire d’Anghiera e Andrea Corsali que acompanharam navegadores portugueses que dobravam o Cabo da Boa Esperança ou navegavam pelos Oceanos Índico. Mas a descrição que mais impacto causou foi a do cronista italiano Antonio Pigafetta quando acompanhava a expedição espanhola liderada pelo português Fernão Magalhães que viria a ser a primeira circum-navegação  feita ao planeta.

   Quando, em 1492, Cristovão Colombo encontrou o Continente Americano, pensou ter chegado à Índia, chamando aos povos que encontrou Índios (ver o artigo A vida num sopro para mais sobre a sua chegada). Mas, como visto no artigo Continente de Vénus, Américo Vespúcio, primo por casamento da Vénus de Botticelli, mostrou que se tratava de um novo continente e que o objetivo espanhol de chegar à Índia por Ocidente não tinha sido alcançado. Várias expedições espanholas foram organizadas depois para estabelecer uma rota ocidental (já que as rotas orientais eram portuguesas de acordo com o Tratado de Tordesilhas, abordado no artigo Portugal horizontal) para chegar à Índia e às Ilhas das Especiarias (Ilhas Molucas). O explorador espanhol Vasco Núñez de Balboa chegou ao Oceano Pacífico através do istmo do Panamá em 1513 e Juan Díaz de Solís morreu em 1516 ao explorar o Rio da Prata na América do Sul procurando o mesmo objetivo.

   Em 1517, Fernão de Magalhães e o seu sócio Rui Faleiro propuseram à coroa espanhola um plano para procurar estabelecer uma rota ocidental marítima para as Ilhas das Especiarias encontrando uma passagem pelo sul da América. O plano foi aprovado e Fernão de Magalhães e Rui Faleiro começaram a planear a expedição. A falta de dinheiro, a interferência do rei português D. Manuel I, a desconfiança espanhola em relação aos marinheiros portugueses e o feitio difícil de Rui Faleiro (que desistiu da expedição pouco antes de ela partir) dificultaram a preparação. O rei espanhol Carlos I, pai de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) providenciou 5 naus (Trinidade, San António, Concepción, Santiago e Victoria) mais 3/4 do dinheiro necessário e mantimentos para dois anos, o mercador Cristóvão de Haro o restante 1/4 do dinheiro e o cartógrafo português Diogo Ribeiro os mapas necessários.

    Em 1519, a expedição partiu do porto de Sevilha. A tripulação consistia em 270 pessoas, a maioria marinheiros, 40 dos quais Portugueses. Entre os embarcados estavam Duarte Barbosa (cunhado de Fernão de Magalhães e que viveu 17 anos na Índia), João Serrão (irmão de Fernando Serrão que residia nas Ilhas Molucas desde 1512), Estêvão Gomes (capitão da San António, que viria mais tarde a explorar a costa norte do continente americano), Antonio Pigafetta (cronista italiano da viagem), Juan Sebastián Elcano (navegador basco que se inscreveu na viagem para obter o perdão do rei das dívidas que tinha) e Henrique de Malaca (nativo de Sumatra que Fernão de Magalhães capturou em 1511 durante a conquista portuguesa de Malaca).

   A expedição partiu de Sevilha, desceu o rio Guadalquivir, aguardaram cerca de um mês na foz do rio e partiram de Espanha perseguidos por navios portugueses que conseguiram despistar. Dirigiram-se às Ilhas Canárias (cedidas pelos Portugueses aos Espanhóis como visto no artigo Portugal horizontal) depois Cabo Verde antes de dirigirem à costa brasileira. 2 meses depois, em Fevereiro de 1520, chegaram a foz do Rio da Prata na atual Argentina. O rio recebeu o seu nome do explorador italiano Sebastião Caboto  (cujo nome viria a ser dado à técnica de explorar a costa chamada cabotagem) que soube da existência de uma serra feita de prata no interior chamada Potosi. Devido ao nome do rio, a região junto à costa foi chamada Argentina, da palavra latina Argentum para prata e a razão pela qual o símbolo químico para a prata é Ag.

   Enquanto aguardavam a passagem do Inverno antes de prosseguirem viagem, 3 dos 5 capitães amotinaram-se mas a revolta foi suprimida e um dos capitães foi morto. A expedição prosseguiu depois, tendo uma das naus (Santiago) afundado enquanto explorava a costa. Os outros 4 navios continuaram a viagem tendo atravessado a muito custo, a 1 e Novembro de 1520 (Dia de Todos os Santos na religião católica) o Estreito que separa os Oceanos Atlântico e Pacífico. Durante a travessia, o capitão da nau San António Estêvão Gomes abandonou o navio e a tripulação e voltou para Espanha onde foi preso. Depois das tempestades que enfrentou na passagem do estreito, que Magalhães chamou Estreito de Todos os Santos (conhecido agora como Estreito de Magalhães), a súbita calma das águas do novo oceano levaram a que Magalhães lhe chamasse Oceano Pacífico. Foram também os primeiros Europeus a uma região habitada por nativos muito maiores do que eles a que Magalhães chamou Patagões (provavelmente a tribo dos Tehuelches) e à região Patagónia, talvez inspirado na personagem Patagon do Romance de Cavalaria Primaleon publicado em 1512.

   A viagem continuou até que, a 16 de Março de 1520, as naus de Magalhães chegaram às Filipinas, os primeiros Europeus a terem-no feito. Magalhães converteu um dos reis das ilhas e a sua esposa ao Cristianismo. Procurando mais aliados nativos, Magalhães envolveu-se na política interna das ilhas e foi convencido a atacar Datu Lapu-Lapu. Na expedição que liderou, Magalhães foi morto por uma lança de bambu e os seus soldados que tinham sobrevivido fugiram. As baixas sofridas convenceram os marinheiros a queimar a nau Concépcion por não haver mãos suficientes para a manobrar. Os 115 sobreviventes (menos de um terço da tripulação original) saíram das Filipinas comandados por Elcano nas naus Trinidade Victória carregadas de cravos-da-índia (Syzygium aromaticum) e dirigiram-se às Ilhas Molucas a sul das Filipinas. Lá carregaram canela nos navios e decidiram voltar a Espanha atravessando o Oceano Índico e o Cabo da Boa Esperança com 26 toneladas de especiarias a bordo. Mas a nau Trinidade começou a meter água e a Victória prossegiu sem ela. Algumas semanas mais tarde a Trinidade foi capturada pelos Portugueses e a Victória passou o Cabo da Boa Esperança, tendo 20 tripulantes morrido de fome e 13 sido deixados em Cabo Verde. A 6 de Setembro de 1522 a nau Vitória chegou a Espanha, quase três anos depois das 5 naus terem partido. O objetivo espanhol de chegar às Ilhas Molucas por Ocidente tinha finalmente sido alcançado.

   As  cerca de 7 640 ilhas que compõem o arquipélago das Filipinas foram assim chamadas 23 anos depois da chegada de Magalhães pelo explorador espanhol Ruy López de Villasboas em homenagem ao rei espanhol Fernando II de Espanha (Filipe I de Portugal). Seguiram-se 300 anos de colonização espanhola. Algumas das mais de 170 línguas das Filipinas incluem Tagalog (a Língua Oficial também chamada Filipino), Aklan, Bikol, Cebuano, Chavacano, Hiligaynon, Ibanag, Ilokano, Ivatan, Kapampangan, Kinaray-a, Maranao, Pangasinan, Sambal, Surigaonon, Tausug e Waray. As línguas não têm o som «F» (e só desde 1987 é que têm a letra no alfabeto oficial) e os naturais das ilhas chamam-lhes Pilipinas com «P». O nome do Arquipélago foi oficialmente alterado em 2013 de Pilipinas para Filipinas para corresponder às designações internacionais. Das cerca de 30 mil raízes de palavras em Tagalog, perto de 10 000 têm influências do Espanhol e há várias palavras em Tagalog que são parecidas com o Português por isso. Palavras como Asul, Arko, Barko, Berde, Direktor, Edukasyon, Estudyante, Hustisya, Inutil, Karne, Kasál, Labi, Número, Oras, Ospitál, Sabón, Serbesa, Trigo, Ubas ou Unibersidad têm exatamente o significado em Português que a sua sonoridade sugere. Mas não se pense que perceber Tagalog seja imediato. Eis a música de parabéns em Tagalog («Muitos parabéns» diz-se Maligayang Bati):