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153. Costa persa

Há um arquipélago ao largo de África, parte da atual Tanzânia, que fez parte do império colonial português durante 200 anos, o que deu origem a uma tourada típica do arquipélago que acaba quando o touro se cansa, onde nasceu o vocalista de uma banda inglesa de fama internacional, cuja família pertence à religião monoteísta mais antiga que é ainda praticada e que inspirou um filósofo alemão, família descendente de um grupo de refugiados persas na Índia, de onde fugiram para o arquipélago e finalmente para a Inglaterra.

   A Tanzânia é um país localizado na costa oriental africana, a norte de Moçambique. É composta pelo seu território continental (o antigo reino de Tanganica) e pelo arquipélago de Zanzibar (que foi parte do Império Colonial Português entre 1504 e 1698), tendo os dois se unido em 1964 e a combinação dos seus nomes sido dado ao novo país. Zanzibar é composto pelas ilhas principais de Unguja e Pemba e uma série de outras ilhas mais pequenas. A ilha de Mafía é parte de Tanganica mas não de Zanzibar.

   O nome do arquipélago, Zanzibar, virá das palavras persas Zang (زنگ ) “negro” e bâr (بار ) “costa”, em referência à etnia Bantu que colonizou a África subsariana no 1.º milénio, graças aos seus conhecimentos de como forjar ferro. Os famosos Zulus são um povo bantu. A etnia bantu que colonizou Zanzibar foi a Sualí, (a palavra árabe Sawāhil سواحل significa "costa") que se instalaram na costa este de África no século 9 e trouxeram a religião muçulmana que é a religião praticada por 99% dos habitantes de Zanzibar.

   Em 1498, o explorador português Vasco da Gama foi o primeiro europeu a chegar ao arquipélago por mar no seu caminho para a Índia na 1.ª Armada Portuguesa da Índia. Foi a 2.ª Armada Portuguesa, comandada por Pedro Álvares Cabral, que, em 1500, chegou ao Brasil. Alguns anos mais tarde, em 1504, Zanzibar foi integrado no Império Português quando duas naus da terceira esquadra da 5.ª Armada Portuguesa da Índia se perderam. A Armada era constituída por 3 esquadras que partiram de Lisboa em 1503 para levar Afonso de Albuquerque para a Índia para se tornar o segundo Vice-Rei português. A última esquadra a partir, composta por três naus, era comandada por António de Saldanha e a sua inexperiência levou a que as três embarcações sob o seu comando se separassem. Uma delas, comandada pelo capitão Ruy Lourenço Ravasco Marques, tendo perdido a hipótese de acompanhar a armada, navegou pela costa este africana e aportou em Zanzibar, onde exigiu e obteve (após disparos de canhão sobre os edifícios da cidade) a sujeição da ilha à autoridade da coroa portuguesa e um tributo anual de 100 moedas de ouro. Anos mais tarde, em 1544, um explorador português de nome Lourenço Marques explorou a Bacia de Moçambique mais a sul e onde se instalou, casou com uma mulher da zona e viveu lá com os filhos de ambos. A cidade que mais tarde cresceu nessa zona recebeu o seu nome, Lourenço Marques, e tornou-se a capital de Moçambique. Em 1976, após a independência do país, a cidade mudou de nome para Maputo, um rio no sul do país que desagua na bacia de Maputo.  

   Durante quase 200 anos (de 1504 a 1698)os Portugueses receberam o tributo do arquipélago mas não o administravam diretamente, deixando o governo das ilhas nas mãos dos chefes locais. Apenas em 1634, após os habitantes portugueses da ilha de Pemba terem sido mortos em 1631, é que Portugal construiu um forte na ilha e passou a nomear governadores portugueses até 1698. Estes 200 anos de presença portuguesa resultaram em duas tradições culturais na ilha de Pemba. Uma delas é a kirumbizi, um misto de luta e dança usando bastões acompanhada por música, que surgiu como técnica de luta de guerrilha contra os portuguesas. Da mesma forma, no Brasil, a capoeira surgiu como arte marcial disfarçada de dança com a qual pessoas escravizadas lutavam contra os portugueses. Como visto no artigo Legião Laranja, a palavra guerrilha, significando «pequena guerra», surgiu durante as invasões francesas da península ibérica durante o século XIX que levaram à independência do Brasil. 

   A outra tradição cultural com raízes portuguesas é a Mchezo a ng’ombe (literalmente «Jogo da vaca» em Suaíli, a língua mais falada no arquipélago), a tourada na ilha de Pemba, inspirada na tradição tauromática portuguesa. O objetivo é apenas não ser atingido pelo touro e acaba quando este fica cansado. É tão popular na ilha como o futebol (de associação) é no resto do mundo. Ver o artigo Futebol: Associação ou Rugby para a diferença entre futebol, râguebi e futebol americano. Os touros usados na tourada de Pemba são a variedade  de Zanzibar do Zebu indiano. Este bovino constitui já cerca de 80% do gado bovino brasileiro pois esta espécie de adapta-se bem ao clima quente da América do Sul e foi introduzido no Brasil  entre 1897 e 1930.

   A partir de 1698, o arquipélago passou a fazer parte do Sultanado de Omã após a derrota das tropas portuguesas durante o cerco de 3 anos ao Forte de Jesus de Mombaça.  A partir de 1832 (ou 1840), o Sultanado de Omã foi dividido entre dois príncipes herdeiros, tendo surgido assim o Sultanado de Zanzibar com o Sultão Majide bin Said. Este concentrou a sua governação entre o comércio de especiarias e o comércio escravo e Zanzibar tornou-se o centro do comércio humano. No continente, a costa de Tanganica foi dividida entre os Império Alemão e Inglês, tendo os alemães assinado, em 1890, o Tratado de Heligoland-Zanzibar, que concedia Zanzibar ao Império Inglês com o estatuto de protetorado. A situação política do arquipélago durou até 1896, quando a Guerra mais curta de que há registo (apenas 38 minutos), a Guerra Anglo-Zamzibari, tornou Zanzibar parte integrante do Império Inglês.

   Durante este período de integração inglesa, muitos emigrantes árabes e indianos foram para Zanzibar. Um casal indiano, Bomi (marido) e Jer (esposa) Bulsara, mudou-se para Zanzibar em 1940. O casal Bulsara era da etnia pársi, um grupo de refugiados de origem persa que escapou, no século 7, às invasões árabes da Pérsia (atual Irão), se instalou no estado de Gujarate e que se manteve geneticamente homogéneo e isolado dos restantes indianos ao longo dos séculos. Os pársi eram (e são ainda) crentes e praticantes da mais antiga religião monoteísta ainda praticada do mundo, o Zoroastrismo.  Esta é uma religião monoteísta com um só Deus criador, Ahura Mazda em constante luta contra o seu irmão gémeo distorcido representante do Mal de nome Ahriman. Para o ajudar na sua luta contra Ahriman, Ahura Mazda criou seres imortais com um pouco do seu poder chamados Yazatas. Fazem parte do Zoroastrianismo conceitos como messianismo, julgamento após a morte, céu e inferno, dualidade bem e mal, verdade e mentira, caos e ordem, livre arbítrio e imortalidade da alma. Como visto no artigo Os Medos dos Magos,  o Zoroastrismo persa e o Atonísmo egípcio foram os primeiros monoteísmos de que há registo.

   O Zoroastrismo foi fundado pelo profeta Zaratustra Spitama que viveu no século 7 AEC na Pérsia, atual Irão. A religião que ele fundou deve o seu nome à tradução literal do seu nome em Persa (Zaraϑuštra) para o Antigo Grego Zōroastrēs (Ζωροάστρης). O nome grego parece ser baseado na semelhança auditiva de zaraϑ-  com a  palavra grega ζωρός zōros (por diluir) e de -uštra, auditivamente semelhante à palavra grega ἄστρον astron (estrela). Entre 1883 e 1885, o filósofo alemão Friedrich Nietzche escreveu uma novela filosófica a que chamou «Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém» (Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen) no qual são relatadas as viagens fictícias e discursos de Zaratutra como forma de expressar a filosofia defendida por Nietzche. Zaratustra foi escolhido por ser o fundador de uma das bases teológicas do Judaísmo e o filósofo alemão querer usá-lo para representar a quebra com a moralidade judaico-cristã.

 Seis anos após o casal Bulsara se mudar para Zanzibar em 1940, nasceu o primeiro filho do casal a quem deram o nome de Farrokh Bulsara em 1946 e, seis anos depois, em 1952, a filha mais nova Kashmira Bulsara. A família Bulsara era originária da cidade indiana de Gujarate, pertencente então ao estado de Bombaim (atual Mumbai), cidade de origem portuguesa cedida aos ingleses em 1661 como dote da princesa Catarina de Bragança, como visto no artigo Pegadas no chá.

   Em 1953, quando Farrokh tinha quase 8 anos e Kashmira tinha 2 anos, ele foi enviado sozinho para a Índia para estudar na Escola para Rapazes St. Peter na cidade de Panchgani, onde estudou e viveu longe da sua família até fazer 14 anos, em 1958. Foi na sua estadia neste colégio interno que Farrokh descobriu o seu talento musical e gosto pela música pop ocidental. Foi também aqui que ele passou a ser conhecido como Freddie por os seus colegas estranharem o seu nome de batismo Farrokh. Voltou depois para Zanzibar, onde viveu com a família na Cidade de Pedra, o núcleo histórico da cidade de Zanzibar.

      Freddie Bulsara viveu em Zanzibar com a família até 1964, quando uma revolução trouxe a independência ao arquipélago e sentimentos negativos contra a minoria indiana que dominava a economia da ilha. Preocupada, a família mudou-se para Feltham, parte da região metropolitana de Londres quando Freddie tinha 20 anos. Lá estudou design gráfico e formou-se na Escola Politécnica de Isleworth. Um colega de Freddie chamado Tim Staffell fazia parte de uma banda chamada Smile e introduziu-o aos outros membros. Em 1970, Freddie tornou-se o vocalista da banda, incentivou a mudança do nome de Smile para Queen e adotou o nome pelo qual é mais conhecido: Freddie Mercury. O logótipo da banda foi desenhado por Freddie Mercury e representa os signos do Zodíaco (de que se falou no artigo 13 sinais) dos membros dos Queen: dois leões (John Deacon e Roger Taylor), um caranguejo (Brian May) e duas fadas para Virgem (Freddie Mercury).