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130. Imigração cirílica

As ondas recentes de imigração para Portugal. refugiados sírios, comunidade brasileira, povos eslavos, línguas cirílicas e religião ortodoxa.

   Nestas duas décadas desde o início de século XXI, a realidade social e demográfica de Portugal tem vindo a alterar-se. Não só se ultrapassou a marca dos 10 milhões e 600 mil habitantes, em 2007, como muitos imigrantes fizeram do país o seu lar. Havendo vários imigrantes de ex-colónias portuguesas (tanto de vários países africanos como do Brasil), também muitos são oriundos de países da Europa de Leste. De acordo com o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), em 2016 o número de imigrantes registados em Portugal aumentou significativamente, tendo sido o ano com mais pedidos de residência nos últimos 15 anos e houve alterações na origem dos emigrantes. A maioria dos pedidos proveio de África (Eritreia, Guiné, Congo, Angola) com 611 pedidos e da Ásia (Síria, Iraque, Paquistão, Afeganistão e China) com 642 pedidos. Foram reconhecidos 104 estatutos de refugiado a nacionais de países africanos e asiáticos e concedidos 267 títulos de autorização de residência por razões humanitárias (161 em 2015), maioritariamente a nacionais de países europeus (191), asiáticos (63) e africanos (10), como se pode consultar no Relatório do SEF de 2016.   Apesar das preocupações com a Guerra Civil na Síria em 2011, o número de refugiados sírios em Portugal (menos de 5 mil) é irrisório perante comunidades como a brasileira com cerca de 80 mil ou a cigana (de que se falou no artigo Egipcianos errantes) de 50 mil. Com a guerra civil na Síria, cerca de 13,5 milhões de pessoas (de um total de 22 milhões) refugiaram-se quer noutras zonas da Síria (mais de 6 milhões) quer em países em redor da Síria (mais de 5 milhões). Dos mais de 5 milhões de refugiados registados pela ONU, o país com maior número de refugiados sírios é a Turquia (3,5 milhões), Líbano (2,2 milhões) e a Jordânia (1,3 milhões). Na União Europeia, destaca-se a Alemanha (600 mil), Suécia (110 mil) e Hungria (72,5 mil). Os números relativos ao Brasil são 9,5 mil registados em 2016, a Espanha com apenas 2 mil dos 17 mil esperados e Portugal acolheu 3000dos 4500 previstos.

   Mais significativo em termos de imigração para Portugal deu-se no final do século 20, com o desmantelamento da União Soviética e do Pacto de Varsóvia. O Pacto de Varsóvia, fundado em 1955 e extinto em 1991, foi a reacção da União Soviética à NATO. Os seus membros incluíam a Albânia, a Bulgária, a Checoslováquia (que se dividiu nas modernas República Checa e Eslováquia), a Hungria, a Polónia, a Roménia (que se dividiu nas modernas Roménia e Moldávia e de que se falou no artigo Quinta Flor do Lácio), a URSS e a ex-Alemanha de Leste. A URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (CCCP em Russo), era constituída pelos agora independentes estados Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Estónia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Letónia, Lituânia, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turquemenistão, Ucrânia e Uzbequistão.

   Várias são as características que diferenciam estes países europeus dos restantes da Europa, além da localização geográfica. Sendo muitos Cristão-Ortodoxos e tendo passado pela experiência comunista, usam também um alfabeto bem diferente do usado pela maioria dos outros países europeus, o chamado Alfabeto Cirílico (a Grécia usa ainda outro, o Alfabeto Grego). Há letras com representação gráfica semelhante às do Alfabeto Latino mas com significados diferentes (a referida CCCP seria, em caracteres latinos, SSSR, aproximando-se assim de URSS em Inglês e URSS em Português) e há ainda semelhanças com letras gregas. Várias são as línguas europeias que usam este alfabeto, nomeadamente o Bielorrusso, o Búlgaro, o Macedónio, o Servo, o Ucraniano e o Russo, havendo algumas letras que se usam numa língua mas não noutra (da mesma forma que «k», «y» e «w» não eram usados no Alfabeto português, apesar de fazerem parte do Alfabeto latino).

   O país que mais facilmente se associa ao Alfabeto cirílico é a Rússia, devido à sua importância cultural e histórica e este Alfabeto é usado na maioria dos países do anterior Pacto de Varsóvia. Das letras do Alfabeto cirílico estas são as que são usados pelo Alfabeto russo, maiúsculas à esquerda e minúsculas à direita e tendo por baixo a relativa correspondência sonora de cada letra com as do Alfabeto latino. A título de exemplo, «Cognosco», em caracteres cirílicos, representa-se desta forma. É importante chamar a atenção que não há uma correspondência unívoca (isto é, de um para um) entre o Alfabeto cirílico e o Alfabeto latino: nem todas as letras cirílicas correspondem a uma só letra latina, há letras cirílicas que não têm correspondência latina (sons que não se utilizam nas línguas que usam o Alfabeto latino) e a correspondência é feita a nível sonoro e não visual. Por exemplo, uma frase simples em Russo: Привет, мое имя – Миша. Em caracteres latinos, esta frase escreve-se: Privet, moye im’a Misha. Em Português, o significado da frase é: Olá, o meu nome é Misha. Ou atente-se a esta banda feminina russa, de nome Ranetki (em alfabeto latino): Ранетки – Ангелы

 Na região central da Europa, onde se situa a parte ocidental da Rússia, a Ucrânia, a Bielorrússia, a Bulgária, a República Checa, entre outros, desenvolveu-se um grupo de povos a que o historiador grego Ptolomeu chamou de «tribos eslavas», pois esse era o nome que davam a si mesmos, sendo que «slovo» significava «falar», por oposição a «nemi» que significa «mudo». Ou sejam, chamavam Eslavos aos povos que partilhavam línguas mutuamente inteligíveis. A outros povos, como os Germânicos, chamavam «Nemi». Ainda hoje, o termo polaco para «alemão» é «Niemcy».

   Por volta do final do século 9, dois irmãos (entretanto canonizados como santos) de nomes Cyril e Methodius decidiram criar um alfabeto eslavo que permitisse traduzir a Bíblia para as línguas eslavas. Criaram então o Alfabeto Glagolítico, de «glagol’», «declaração». Simultaneamente, «glagolati» também significa «falar», que foi usado até à Idade Média, principalmente em contextos religiosos, tendo como base os Alfabetos latino e grego. Um aperfeiçoamento posterior daria origem a um novo Alfabeto a que é dado o nome de Cirílico, do nome de uma dos irmãos, o São Cirilo.

    No século 10, chegaram à Europa Central, vindos da Escandinávia (Suécia, Noruega e Dinamarca), povos víquingues, nomeadamente um de nome Rus, que viria a emprestar o seu nome ao país que que depois aí surgiu, a Rússia. Esta expansão deu-se durante a chamada Idade víquingue, um período da História Medieval Europeia que decorreu entre o século 8 (com a pilhagem de Lindisfarne, em 793) e até ao século 11 (com a conquista normanda da Inglaterra, em 1066). Em 793, um grupo de Víquingues chocou a Europa com o ataque e pilhagem da ilha de Lindisfarne, no Noroeste da moderna Inglaterra, com a pilhagem do seu Mosteiro e escravização dos seus monges. Os quingues (palavra esdrúxula logo carecida de acento grave na antepenúltima sílaba) expandiram-se territorialmente para a Inglaterra, Norte da França Europa de Leste e mesmo ao continente americano. Os Víquingues colonizaram o oeste da Inglaterra, vencendo os Bretões, os Anglos e os Saxões residentes. Outros, oriundos da Dinamarca, colonizaram a Europa, como foi o caso da moderna França, na região conhecida como Normandia (de Norsemen, Homens do Norte, como os Víquingues eram conhecidos).

   Estes últimos, em 1066, às mãos de Guilherme, o Conquistador, invadiram por sua vez a Inglaterra, vencendo os Víquingues anteriormente aí estabelecidos, bem como os restantes Anglo-Saxões e Bretões. Aborda-se a origem da moderna língua inglesa no artigo Inglês, língua mundial. É referida a influência víquingue, havendo perto de mil palavras do moderno inglês que são de origem víquingue, como as iniciadas por «sk» (como «sky» – céu- e «skii» - esqui). A origem víquingue de muitas palavras inglesas começadas por «sk» é equivalente à origem árabe de muitas palavras portuguesas começadas por «al».

   Um século antes, em 864 AC, o Cristianismo tinha passado a ser a religião oficial da Bulgária e o Príncipe Boris I Michael (Борис I Михаил, em cirílico) encomendou a Clemente de Ohrid, estudioso búlgaro e o primeiro Arcebispo búlgaro, Bíblias escritas em Búlgaro. Não sendo o Alfabeto Latino o mais indicado para expressar alguns sons da língua, este utilizou o Alfabeto Glagolítico, inventado pelos seus Mestres Cyril e Methodius e, combinando-o com o Alfabeto grego (a Bulgária faz fronteira com a Grécia) e com o Alfabeto Hebraico, inventou um novo Alfabeto, inicialmente com fins meramente religiosos, a que deu o nome de Cirílico, nome de um dos seus Mestres e criador do Alfabeto no qual ele mesmo se baseou para desenvolver o seu.

   Os Víquingues que se instalaram na região converteram-se à religião Ortodoxa e passaram a usar este novo Alfabeto. Quando os estados a que deram origem surgiram (como a Rússia), esta era a sua religião e este era o seu Alfabeto. Assim, à medida que a Religião Ortodoxa se expandia da Grécia e Médio Oriente para a Europa de Leste, o Alfabeto cirílico, criado inicialmente para permitir essa expansão religiosa, foi-se propagando, tendo sido alvo de algumas reformas de índole política ao longo a sua História. O Alfabeto cirílico original é o usado ainda pela Igreja Ortodoxa, sendo o moderno cirílico usado para fins não religiosos e adaptados a língua que o usa. Este tem sido o Alfabeto que tem sido usado, desde a sua criação, no século 9, na maioria dos países da Europa de Leste. A semelhança visual por vezes curiosa entre os Alfabetos latino e cirílico, como seja o caso de «и», que parece um «N» invertido (correspondendo ao «i» latino), tornam-no numa fonte apetecível para a escrever mensagens de forma curiosa.

   Quando, em 795, o Imperador romano Teodósio I morreu, o império foi dividido em Ocidente e Oriente. O Império Romano do Ocidente, com capital em Roma, e o Império Romano do Oriente, com sede em Constantinopla. Em 1054, dá-se a ruptura entre os dois braços do Cristianismo: enquanto, no Ocidente, o Imperador e o Papa eram figuras distintas, no Oriente o Imperador era simultaneamente a figura religiosa cimeira. O Catolicismo e o Ortodoxismo partilham as mesmas raízes cristãs, procurando no entanto a Ortodoxa ser mais «fiel» aos ensinamentos cristãos mais próximos da origem. Ambos os ramos aceitam a Santíssima Trindade, a Ressurreição, a Comunhão, a Confissão, a existência de Santos, do Pecado e da Remissão do mesmo entre outros pontos comuns. São irmãs desavindas, simplesmente.