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103. Coelhos laranjas

A História de como nada do que comemos é natural, algumas das transformações do vegetal com muitas propriedades nutritivas que tem muitas cores mas é conhecido por apenas uma, a sua ligação à realeza, porque não é comido por coelhos apesar da persistente imagem de um a roê-lo e a sua única árvore existente somente em Portugal.

   Os Seres Humanos (Homo Sapiens Sapiens) existem há cerca de 300 mil anos, como revelado por fósseis encontrados em 2017 em Marrocos. Durante centenas de milhares de anos, fomos caçadores-recoletores, alimentando-nos do que a Natureza nos ia disponibilizando. Até que, há cerca de 15 mil anos, em diversas partes do Mundo, surgiu a agricultura (das palavras em Latim ager, "campo" e cultūra, "cultivo"): trigo, aveia, ervilhas na Mesopotâmia (de que se falou brevemente em Medos dos Magos), pêssegos, arroz e soja na China, cana de açúcar na Nova Guiné, batatas, feijões e cacau na América do Sul, bananas na Papua-Nova Guiné (como relatado no artigo Guerra de Sabores), teosinto (antepassado do milho) e algodão na América Central. Também animais selvagens foram domesticados: porcos e ovelhas na Mesopotâmia, auroques (antepassados das vacas) na Turquia,  lamas e alpacas na América do Sul e camelos na Ásia.

   Nestes curtos 15 mil anos, todas as espécies animais e vegetais que os Seres Humanos comiam foram sendo enormemente modificados por seleção artificial e por hibridização (um processo pela qual o material genético de espécies diferentes é cruzado, comum nas plantas e mais raro entre animais) e características como maior tamanho, melhor sabor, bom aspeto ou comportamento mais dócil foram encorajadas. Poucas (ou mesmo nenhumas, excetuando os peixes) das espécies animais e vegetais que são consumidas pela sempre crescente população humana  são como eram. E as mudanças foram enormes e surpreendentes: desde os pêssegos do tamanho de cerejas e com caroços enormes até aos modernos pêssegos aos modernos com 90% de polpa; a fruta Diospyros kaki (dióspiros em  Portugal e caquis no Brasil) com  sementes alongadas para as atuais variedades sem sementes; laranjas doces e sem sementes (veja-se o artigo Portugal: laranja mecânica); pequenas bananas cheias de sementes até às modernas bananas alongadas e com apenas vestígios ténues das suas sementes (veja-se o artigo Guerra dos sabores).

   Também houve uma planta consumida inicialmente pelas suas folhas aromáticas mas com uma raíz fibrosa, sabor amargo e pouco nutritiva que foi com o tempo transformada de tal forma que não se parece com a sua antepassada nem com as outras plantas da sua família. Originária da Pérsia, as plantas da sua família são ainda hoje cultivadas pelas suas folhas aromáticas e usadas em temperos: aniscominho, aipo, coentrofuncho (de onde deriva o nome da cidade Funchal), cicuta (que foi usada como veneno para matar o filósofo Sócrates), cherovia e a salsa.

   Trata-se da flor Daucus carota, planta bienal (só dão flor a partir do segundo ano após o cultivo) e da sua subespécie domesticada, a Daucus carota sativus. A variedade selvagem tem uma aparência semelhante à da mortífera cicuta, produz várias flores pequenas de cor branca (com uma flor central roxa) e era consumida pelas suas folhas e sementes, primeiramente para fins medicinais. A variedade domesticada começou a ser cultivada e consumida pelas mesmas razões mas foi progressivamente selecionada para ter raízes cada mais mais dilatadas e com um sabor menos amargo e mais comestível. Mas as folhas e sementes podem ser consumidas como eram antigamente, apesar de algumas plantas da sua família terem folhas venenosas (como a supracitada cicuta).

   A flor Daucus carota é a bem conhecida cenouraDaucus vem do Antigo Grego «daukos», que vem da palavra “daîo”  (que significa «sobreaqueço» pois esfregar a ramagem da cenoura selvagem na pele pode levar a queimaduras químicas dolorosas). Carota significa cenoura em Latim. Durante milhares de anos, a flor foi sendo escolhida para ter a raíz mais alargada e comestível que tinha cor branca ou roxa (as mesmas que as cores das suas flores).  Até que, há cerca de mil anos, uma mutação surgiu em cenouras no Afeganistão e elas tornaram-se amarelas ou roxas (antes do século XVI, as cenouras eram amarelas nas pinturas).  Os árabes introduziram as cenouras na península ibérica, que depois se espalharam pela Europa. Aos poucos, a tonalidade laranja-escura das cenouras foi selecionada para ser mais clara, levando à cor laranja atual da maioria das cenouras consumidas. A variedade laranja tornou-se a preferida pela sua cor distintiva e por cozer mais facilmente.

   A variedade mais consumida de cenouras é laranja porque absorve as ondas de luz que se combinam para formar esta cor mais do que outras. O betacaroteno é o seu principal pigmento e absorve as ondas de luz entre os 400 e 500 nanómetros (a cor vermelha e amarela). Veja-se o artigo Pontes de cor sobre as cores do arco-íris e como se formam. Este é encontrado principalmente na variedade laranja das cenouras mas também pode ser encontrado em abóboras, pêssegos, nectarinas, espinafres e brócolos. A cor verde (devido à clorofila) de alguns destes vegetais esconde a cor laranja dos betacarotenos, que pode ser vista no Outono, quando as folhas morrem e perdem a clorofila. As cores amarela e vermelha surgem então, providenciadas pelos mais estáveis carotenos, que permanecem mesmo a pós a morte da folha. A cor laranja também passou a ser mais ligada às cenouras devido aos Países Baixos: William the Orange liderou a revolta holandesa contra os Espanhóis durante a Guerra dos Oitenta Anos que terminou em 1581 e cujo estandarte tinha a cor laranja. Como tal, tudo quanto tivesse a cor laranja era valorizado. O estatuto de Potência Mundial nos séculos 16 e 17, feito também em prejuízo do Império Português (como visto nos artigos Novas e Demónios e Portugal: império perdido) tornou a cor laranja para as cenouras como padrão.

   A variedade laranja das cenouras é rica em pró-vitamina A (isto é, é usada no corpo para produzir vitamina A).  A vitamina A é importante para manter a camada lubrificante dos olhos. O papel principal das cenouras no que diz respeito aos olhos prende-se mais dom manter a sua saúde e não em aumentá-la. A cor dos olhos não é alterada pela ingestão desta vitamina (como se formam as diversas cores dos olhos somente com os pigmentos castanho e amarelo é abordado no artigo Visão Iridescente). Mas a ausência da vitamina A conduz a várias mortes todos os anos no mundo inteiro, em especial de crianças. Cerca de 670 mil crianças com menos de cinco anos morrem todos os anos por deficiência desta vitamina (o arroz constitui a base alimentar da maioria da população asiática). No arroz dourado foi incluído o gene para a produção de Betacaroteno (a substância responsável pela cor laranja nas cenouras, beterrabas e batata-doce) na estrutura genética do arroz. Este tipo de arroz foi desenvolvido por técnicas genéticas para combater essa deficiência alimentar. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Ingleses descobriram o radar, com o qual podiam identificar a trajetória dos aviões inimigos que se aproximavam da ilha. Para manter secreta esta tecnologia perante a eficácia e precisão da Força Aérea em localizar e destruir navios inimigos, os Ingleses difundiram o mito de que os seus pilotos consumiam muitas cenouras e que estas lhes conferiam visão noturna.

   Em termos nutricionais, os benefícios da cenoura são aumentados com a cozedura e subsequente trituração. Desta forma, os betacarotenos e os poliacetilenos (falcarinol e o falcarindiol, que conferem propriedades antifúngicas e anti-cancerosas) são libertados da estrutura rígida nas células da cenoura. Este são também os responsáveis pelo seu sabor amargo. Uma ideia muito difundida é a de que os coelhos se alimentam principalmente de cenouras. Mas estas não são nem devem ser a base da alimentação dos coelhos, apesar da tradicional imagem, como os cunicultores (criadores de coelhos) sabem e aconselham a quem os têm como animais de estimação. Os  coelhos e lebres (que, apesar de parecidos, são espécies diferentes) não comem naturalmente raízes ou frutas. A sua alimentação é principalmente feno, erva fresca e vegetais verdes (ainda que não devam comer alfaces) pois o conteúdo calórico das cenouras e frutos pode conduzir a problemas de saúde, devendo ser consumidos apenas ocasionalmente por eles. O feno não serve apenas como cama para os coelhos mas também como fonte principal de alimentação. Esta também não deve incluir alface, pois estas contêm lactucário que lhes pode fazer mal em grandes quantidades.

   Existe, no Arquipélago da Madeira, a única espécie de cenoura que dá origem a uma árvore e não apenas a um arbusto: a Monizia edulis, conhecida como cenoura-da-rocha, assemelha-se a uma grande cenoura em forma de árvore. É ameaçada de extinção no seu habitat natural, a qual ocorre naturalmente na arribas rocha da ilha da Madeira (até 1500 metros), nas Ilhas Desertas (até 300 metros)  e no Porto Santo e já se terá extinguido nas Ilhas Selvagens.