Arquivo da Categoria: Primeira Guerra Mundial

110. Grande Gripe

A participação de Portugal e do Brasil na Primeira Guerra Mundial

   No início do século 20, entre 1914 e 1918, um conflito armado entre países europeus englobou grande parte do planeta e marcou todo esse século. 60 milhões de soldados europeus e mais 10 milhões de todo o mundo foram mobilizados para lutarem nesta guerra. Fruto de questões deixadas por resolver no século anterior (como as Guerras Napoleónicas de que se falou, no que concerne a Portugal e ao Brasil, nos artigos Legião Laranja e Estrela Verde, ou a Guerra Franco-Prussiana), terminou com cerca de 9 milhões de baixas militares e cerca de 7 milhões de baixas civis e deixou tantas coisas mal resolvidas que deu origem a um novo conflito mundial vinte anos depois. Na altura em que foi travada, era conhecida como a Grande Guerra e assim foi chamada até ao início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ainda que o filósofo positivista Ernst Haeckel tenha dito, logo no início do conflito em 1914, que «esta guerra europeia tornar-se-á a primeira guerra mundial em todos os sentidos da palavra».

   Também os dois únicos países (na altura) de língua oficial portuguesa (Portugal e o seu Império em 1916 e o Brasil em 1917) viram-se envolvidos neste conflito mundial. Ainda que conflitos localizados em África entre o Império Português e o Império Germânico tenham começado logo em 1914 com o Combate de Naunila (na fronteira entre a colónia portuguesa de Angola e a colónia alemã do Sudoeste Africano Alemão), nenhuma declaração de guerra foi emitida entre os dois até 1916, dois anos depois. Portugal não tinha os meios económicos ou militares para se proteger sem a ajuda do seu aliado Inglaterra. Após a independência do Brasil em 1822 e o incidente do Mapa Cor-de-Rosa em 1890 (treze anos após as expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto), a Monarquia Portuguesa não era popular no País, o que levou ao Regicídio de 1908 e à Implantação da República em 1910 (após uma tentativa fracassada em 1891), na qual se destacou Amélia Santos, uma popular que, empunhando uma arma, lutou ao lado dos revoltosos republicanos.

   O novo Regime Republicano procurou concretizar as suas promessas anteriores de reformar o país e modernizá-lo, através de reformas ficais, a separação entre Estado e Igreja, a legalização do divórcio civil, a alteração do anterior hino monárquico para o hino republicano, a alteração da bandeira nacional para as cores republicanas (como se falou no artigo Origens da Bandeira) e da consolidação da língua portuguesa através de um acordo ortográfico com o Brasil (como se falou no artigo Phases). Também procurou consolidar o papel internacional de Portugal, oferecendo ajuda militar aos Aliados dando voz à frustração nacional com os conflitos africanos com a Alemanha e esperando algumas concessões económicas e territoriais no fim do conflito. Mas o Governo Português foi posto em compasso de espera pelo Governo Inglês até 1916, altura em que foi pedido para que todos os navios alemães e áustro-húngaros em portos portugueses fossem capturados. Um deles, o veleiro Max (anteriormente chamado Rickmer Rickmers), encontrava-se no porto da Horta (Açores), foi rebatizado como Flores e emprestado aos ingleses para  ajudar no esforço de guerra. No fim da guerra, foi devolvido a Portugal e tornou-se o Navio-Escola Sagres, como visto no artigo Sagres: Guerra e Paz.

   Em consequência da captura dos seus navios, a Alemanha declarou Guerra a Portugal em Março de 1916 e deu-se início à preparação de um Corpo Expedicionário Português para ser enviado para a França com 20 mil soldados treinados nas táticas de combate modernas surgidas durante a guerra. Foram colocados sob a chefia do General Tamagnini de Abreu e chegaram a França no final de Fevereiro de 1917, onde receberam treino adicional pelo Exército Inglês. Foram sendo incorporados em Unidades Inglesas e os primeiros soldados portugueses estiveram na linha da frente dos combates a 4 de Abril de 1917, dia em que se registou a primeira baixa portuguesa, o soldado António Curado. Após todos os soldados portugueses serem treinados e incorporados no exército inglês, foram formadas duas divisões de soldados portugueses, uma chefiada pelo General Sinel de Cordes e a outra pelo General Gomes da Costa, e colocadas numa secção de 11 quilómetros da frente de combate junto ao rio La Lys.

   Enquanto isso, em Portugal, em Dezembro de 1917, foi feito um golpe de estado e um opositor à participação da portuguesa na guerra, Sidónio Pais, anteriormente embaixador português em Berlim (1912-1916), tornou-se o novo Presidente da República Portuguesa. O regime republicano ganhou um cunho mais presidencialista (com sufrágio direto e a separação entre Estado e Igreja revogados) e as tropas portuguesas a combater em França foram negligenciadas. A 9 de Abril de 1918, após 6 meses contínuos de combate na frente (as tropas inglesas e francesas eram movidas de posição de 3 em 3 meses), o CEP ia ser finalmente substituído por tropas inglesas para um merecido descanso. Nessa manhã, enquanto a substituição estava em curso, 55 mil soldados alemães atacaram a frente defendida pelas tropas portuguesas.

   A substituição teve de ser adiada até um novo alinhamento defensivo ser alcançado e as tropas portuguesas ficaram a atrasar a ofensiva alemã para que este pudesse ser feito com ordens para “morrer na linha B da frente” se necessário. O exausto CEP conseguiu atrasar o avanço alemão o tempo necessário mas a grande custo pois 1 300 soldados portugueses morreram, 4 mil foram feridos e 7 mil foram capturados. Um dos soldados portugueses que se destacou na Batalha de La Lys pela sua coragem e heroísmo foi Aníbal Milhais (1895-1970), o soldado português mais condecorado, tanto pelo exército português como pelos exércitos aliados, que, combatendo sozinho durante 4 dias, permitiu a fuga de várias unidades militares aliadas.

   Após La Lys, o CEP foi retirado da frente e realizou principalmente tarefas de manutenção até ao fim da guerra e o General Tamagnini foi substituído em Julho pelo General Tomás Rosado (1854-1937). 12 mil soldados portugueses morreram durante a a Grande Guerra (incluindo tropas africanas) e 82 mil civis portugueses morreram devido a falta de comida e 138 mil devido à Gripe Espanhola (que não surgiu em Espanha mas foi principalmente noticiada por jornais espanhóis porque a Espanha, por não participar na guerra, não tinha censura militar nos jornais). Um distanciamento entre as Sociedade Civil em Portugal e o Exército surgiu em consequência da guerra e figuras proeminentes do exército, como o General Gomes da Costa, passaram a intervir mais diretamente no processo político para defenderem os interesses do Exército. Entre 1920 e 1926, sucederam-se 23 governos portugueses devido a crises financeiras e políticas até o General Gomes da Costa em 1926 fazer um golpe de estado e ter instaurado uma ditadura em Portugal com António Salazar (de quem se falou no artigo Sal e Azar)  como Ministro das Finanças. Foi o início da Ditadura em Portugal que durou até 1976.

   Um mês após a guerra terminar, Portugal ganhou um pouco de território em África das anteriores colónias alemãs e uma promessa de reparações de guerra. A título de reparações, entre 1928 e 1937, a Alemanha pagou a união várias pequenas bases navais na foz do Tejo para a formação da Base Naval de Alfeite, antiga aspiração da Marinha Portuguesa. Do Império Áustro-Húngaro, Portugal recebeu 6 torpedeiros (85F, 86F, 88F, 89F, 90F e 91F). Construídos nos arsenais de Fiume (atualmente Rijeka, Croácia) em 1915, estes navios foram agrupados, em Portugal, na classe ‘Ave’ e renomeados «Ave», «Zêzere», «Cávado», «Sado», «Liz» e «Mondego». Dois deles (o «Zêzere» e o «Cávado») afundaram na costa marroquina em Bône (atual Annaba) no dia 29 de Novembro de 1921 quando estavam a ser rebocados para águas portuguesas. E os restantes vieram substituir unidades obsoletas, que já se encontravam no ativo desde 1882. O «Mondego» deslocava 230 toneladas e media 54 metros de comprimento por 5,70 metros de boca. O seu calado era de 1,50 metros e tinha uma guarnição de cerca de 38 marinheiros. Foram depois, entre 1934 e 1940, desmantelados para sucata.

   A participação do Brasil na Guerra foi mais modesta, tendo começado por declarar neutralidade no conflito em 1914. Mas, quando a Alemanha abriu a guerra submarina a todos os navios que se encontrassem na zona de guerra, a situação mudou. Após o afundamento dos navios mercantes Piranha, TijucaLapa, Macau por submarinos alemães, o Ministro  dos Negócios Estrangeiros Lauro Müller (de ascendência alemã) foi despedido, várias propriedades de alemães no Brasil foram vandalizadas (falou-se na origem desta expressão em Vândalo civilizado) e 42 navios alemãs em portos brasileiros foram capturados. Em Outubro de 1917, o Brasil declarou guerra à Alemanha com a formação da Divisão Naval em Operações de Guerra. A Marinha Brasileira ficou encarregue de patrulhar o Atlântico Sul e o Brasil enviou um corpo médico para os hospitais militares europeus e pilotos para servirem no Exército Francês. Um planos para enviar soldados para a Europa, financiado por empréstimos de bancos americanos, falhou mas o corpo médico foi enviado  para a França onde ajudou na luta contra a mortífera Gripe Espanhola. Um navio da DNOG foi afundado por um submarino alemão antes do fim da guerra e vários marinheiros morreram de Gripe Espanhola.

Monumento aos mortos da Grande Guerra em Aveiro