Arquivo da Categoria: Primeira Guerra Mundial

34. Trégua de Natal

   1914. A Europa está mergulhada numa guerra fraticida de grandes proporções (de que se falou um pouco em Cavaleiro de Trapp’o): a Primeira Guerra Mundial. Milhões de jovens encontram-se mergulhados até ao joelhos na lama das trincheiras europeias, em consequência do assassinato, em Junho de 1914, do Arquiduque Franz Ferdinand, o herdeiro do trono Áustro-Húngaro. O assassino de Franz Ferdinand não tinha noção que o seu ato mergulharia a Europa numa guerra cruel de 4 anos, após a qual 3 Impérios seriam desfeitos (Áustro-Húngaro, Alemão e Otomano), uma nova potência mundial surgiria (EUA) e o comunismo seria implantado no maior país (em termos geográficos) do mundo e nasceria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Por sua vez, o surgimento destes dois protagonistas mundiais mergulharia o mundo em décadas de terror nuclear.

   Dezembro de 1914 chega. Para os milhões de soldados nas trincheiras, o Natal que se avizinha promete ser o mais triste das suas vidas, longe de famílias e do conforto do lar. A noite de 24 de Dezembro chega, sem que o impasse na frente ocidental se quebre. O primeiro Natal da Guerra será passado ao frio e com as botas mergulhadas na humidade das trincheiras. As tropas inglesas, nas suas trincheiras entre a cidade francesa de Ypres e o canal de La Basseel, ouvem, do outro lado da Terra de Ninguém, que os separava das trincheiras inimigas, cânticos de Natal. Em particular ouvem Stille Nacht.

   A melodia é a mesma que Silent night mas cantada em Alemão (em Português é Noite de Paz). Os Ingleses começam também a cantar a versão inglesa e cedo um amistoso coro germano-britânico enche o ar frio da noite com a canção de Natal. As tropas aliadas, a medo, espreitam por cima dos sacos de areia, para lá da Terra de Ninguém. O que vêem deixa-os boquiabertos: do outro lado avistam-se pinheiros adornados com velas. Os alemães tinham enfeitado pequenas árvores com velas.

   O costume de adornar as árvores de Natal com luzes (na altura eram velas), em particular os pinheiros, comuns na Europa do Norte, é um costume de origem alemã, as Tannenbaum. Foi o príncipe Alberto (1819-1861), primo e marido da Rainha Vitória e fervoroso patriota alemão, quem levou o costume para a Inglaterra. Daí espalhou-se para as vastas possessões mundiais britânicas. Uma das tristes realidades da I.ª Guerra Mundial é que os seus principais protagonistas, o Império Britânico e o Império Germânico eram governados por parentes, nomeadamente 2 netos da rainha Vitória, o Rei George V da Inglaterra e o Kaiser Wilhelm II da Alemanha (que eram primos) e o Czar Nicolai II Romanov (casado com Maria Fyodorovna, prima do Rei de Inglaterra e do Kaiser da Alemanha). Todos os membros das famílias reais europeias eram parentes.

       Nove reis europeus no funeral do rei inglês Eduardo VII em 1910
Mais perplexos ficaram quando avistaram soldados alemães, sem armas, saírem das suas trincheiras com árvores de Natal nas mãos e dirigirem-se, desarmados, para as trincheiras inglesas. Imbuídos do espírito natalício, os ingleses saem das suas trincheiras para os acolherem, perante o olhar incrédulo dos seus superiores. A camaradagem começa: presentes são trocados (os ingleses apreciam os charutos alemães e estes apreciam as rações inglesas), histórias são trocadas (um soldado alemão viveu e trabalhou na Inglaterra até ao despontar da Guerra e pede a um soldado inglês que leve uma carta sua à namorada na Inglaterra), anedotas partilhadas, fotografias de parentes mostradas, endereços e promessas de envio de cartas trocados. Em conjunto dirigem-se à Terra de Ninguém e ambos os exércitos escavam covas para enterrarem os corpos que ali jaziam: Ingleses ajudando Alemães e Alemães ajudando Ingleses; em conjunto cavam túmulos e prestam as últimas homenagens aos mortos.

   Os dois lados apercebem-se que o seu inimigo está tão miserável como eles próprios, ambos sofrendo com o frio, com a humidade das trincheiras, com as saudades de casa. O inimigo já não é tão inimigo, são todos apenas jovens, combatendo por ordem de generais a quilómetros de distância. As tréguas e a confraternização duraram dias. Um jogo de futebol foi organizado, a 1 de Janeiro. Uma bola de futebol foi trazida das trincheiras inglesas e os Ingleses jogaram contra os Alemães (aparentemente o jogo foi ganho pela Alemanha 3-2). Entretanto, os oficiais de ambos os lados tiveram conhecimento destas tréguas espontâneas e imediatamente ordenaram que fosse parada. Pedidos de cessar-fogo escapavam já das bocas dos soldados envolvidos nesta Trégua do Natal de 1914 (que foi principalmente ao longo do sector inglês, entre estes e os alemães. Franceses e Belgas também participaram nesta trégua noutros pontos da frente, mas limitadamente. Afinal ambos os países – parte da França e a totalidade da Bélgica – estavam sobre ocupação alemã). Um oficial inglês, zeloso do seu papel como militar, disparou sobre um soldado alemão. As tréguas terminaram. Noutros pontos da frente, há registos de trocas amistosas de cumprimentos, tiros disparados para o ar e o recomeço dos combates. Mas, por um dia, (ou por vários dias num ou outro setor), a paz reinou sobre o coração de soldados inimigos.

   Sempre que penso no Natal, sempre que vejo histórias de Natal, em que é salientado o espírito de paz, a partilha e as boas acções, sempre me lembro destas tréguas, feitas por homens em condições sub-humanas, com nada além de ódio e desejos de morte para dar, que acalentaram o sonho de paz e deram as mãos. Como é fácil pregar a paz rodeado de abundância e felicidade do mundo ocidental actual. Como parece tão mais genuína esta paz protagonizada por inimigos em guerra…

   A 22 de Novembro de 2005 morreu, com 109 anos, o último soldado sobrevivente que participou na Trégua de Natal de 1914. Alfred Anderson tinha 18 anos quando estava nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial e participou nas trocas de presentes entre Ingleses e Alemães. Os Alemães iniciaram a Trégua começando a cantar o hino de Natal e aproximando-se das trincheiras inglesas com as Tannembaum. Na imagem ao lado, uma cruz em Ypres que comemora a Trégua de Natal.