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97. Decisões em Troia

 O pastor que era príncipe, cujas decisões (aparentemente conduzidas unicamente pela cupidez) levaram a uma guerra de 10 anos que levaria à destruição da sua cidade-natal, conduziria à morte dos seus pais, do seu irmão e à sua própria e lançaria as sementes da criação de um enorme e influente império, que desencadeou a guerra de Tróia, seduziu a bela Helena, veio a contribuir para o nome do maior rio da América do Sul, simultaneamente imparcial e tentado, juíz entre as divindades gregas.

  Esta é a história de Páris, o princípe que se tornou guardadot de gado que se tornou príncipe, que originou a guerra mais conhecida da antiguidade e de como a mais «inocente» decisão pode ter as mais sérias repercussões. Como a maioria dos mitos gregos, esta história-embebida-em-História contém profundas e sérias lições de vida. O mito foi contado por vários autores, gregos e romanos. Mas são mínimas as diferenças entre os diversos relatos.

   Tudo começou em Tróia, cidade-estado grega na Anatólia (a região entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo e que agora faz parte da Turquia), entre o século 13 AEC e o século 12 AEC. O Rei da cidade chamava-se Príamo, que teve várias esposas e concubinas. Da primeira esposa teve um filho, que morreu antes de se tornar adulto. De uma outra teve um filho chamado Esaco (que tinha o dom de interpretar os sonhos e que viria a ser transformado numa ave marinha). Príamo casou também com Hécuba, princesa de outro reino da região. Dela teve Heitor (o príncipe-herdeiro), Páris (o príncipe que originaria a guerra), Heleno e Cassandra (os irmãos-gémeos videntes. Esta última rejeitou o Deus Apolo e que, por isso, lhe rogou a maldição de ninguém acreditar nas sua previsões), Creusa (que viria a casar com Eneias, familiar de Príamo e cujos descendentes viriam a fundar a cidade de Roma), Laódice (que se tornaria nora do semi-deus Hércules), entre outros.

  Quando estava grávida de Páris, Hécuba teve um sonho, no qual dava à luz uma chama ardente. Esaco interpretou o sonho como significando que o bebé, quando crescesse, viria a ser a ruína de Tróia. Quando Páris nasceu, os seus pais, o rei Príamo e a rainha Hécuba, ordenaram que o Tratador do seu gado, de nome Ageleu, levasse o bebé e o matasse. Mas Ageleu não foi capaz de matar um bebé e, por isso, decidiu abandoná-lo no Monte Ida, a sudeste da cidade. Mas a criança foi encontrada por uma ursa da montanha, que em vez de a matar, a amamentou. Passada uma semana, Ageleu voltou e ficou surpreendido por encontrar o bebé vivo e de boa saúde. Resolveu então ficar com o bebé e educá-lo como seu filho. Levou o recém-nascido para casa numa sacola. Como prova de que o bebé tinha sido morto, Ageleu apresentou ao Rei à Rainha a língua de um animal, dizendo ser a do bebé.

   Páris cresceu entre os Tratadores de gado da Anatólia. Um dos seus passatempos era o de organizar combates entre os touros de Ageleu (que ele considerava ser o seu pai). Um dos touros sistematicamente ganhava todos os combates, o que levou Páris a organizar duelos com os touros dos outros Tratadores de gado. Também a esses o boi de Ageleu ganhava sempre. Páris, confiante nas capacidades do touro, anunciou que daria um prémio em ouro ao dono do touro que vencesse o seu. Sabendo do desafio e do prémio, Ares (de onde vem a palavra «aríete», antiga máquina de guerra constituída por um forte tronco de freixo com uma testa de ferro ou de bronze a que se dava em geral a forma da cabeça de carneiro), o Deus da Guerra (cujo equivalente romano é Marte), transformou-se num touro e venceu facilmente o touro de Ageleu. Páris soube depois que o touro que tinha vencido o seu era, na verdade, Ares disfarçado. Mas, mesmo assim, considerou que o prémio lhe era devido e concedeu a Ares a recompensa em ouro. Entretanto teve um romance com Enone, uma ninfa do Monte Ida com o dom da cura. Enone disse a Páris que, se algum dia fosse ferido em batalha, que a procurasse, que ela o curaria.

   Entretanto, no Monte Olimpo, a ninfa Thétis Θέτις era cortejada quer pelo deus Zeus quer pelo seu imão Posídon, Deus dos Mares. No entanto, foi profetizado a Zeus que o filho que Thétis viesse a ter seria mais poderoso do que o seu eventual pai. Zeus era filho do Titã Cronos, que tinha derrotado o seu pai Urano e subido a líder dos deuses. Mas a Cronos foi também profetizado que viria a ser destronado por um seu filhos. Cronos então, para evitar a profecia, sempre que um filho nascia ele devorava-o. Quando Posídon e Zeus nasceram (o quinto e o sexto filho respectivamente), foi dado a Cronos uma pedra envolta em mantas, sendo-lhe dito que eram os filhos. Cronos acreditou e engoliu as pedras. Posídon foi criado na ilha de Rodes e Zeus na ilha de Creta, no Monte Ida. Há dois Montes que, na antiguidade clássica, eram conhecidos como Monte Ida, um na ilha de Creta e outro na Anatólia. O da Anatólia pertence agora à Turquia e chama-se Montanha Kaz.

   Receando que um filho seu lhe fizesse o mesmo que ele fez ao seu pai, Zeus desistiu de procurar seduzir a bela Thétis. Casou-a por isso com o Rei Peleu, da ilha grega de Egina. Depois do casamento nasceu Aquiles, o herói grego que teria como descentes Alexandre Magno e Pirro, como visto no artigo Vitória pírrica.  Thétis mergulhou então o seu filho no Rio Estige Στυξ (rio mitológico que uniria a Terra ao Submundo), de forma a torná-lo invulnerável. Segurou a criança pelos calcanhares e mergulhou-o nas água do rio. Mas esqueceu-se dos calcanhares por onde segurou a criança, deixando-o vulnerável nessa zona. O Tendão de Aquiles, no calcanhar humano, recebeu esse nome devido a este mito.

   Aquiles tornou-se um grande guerreiro, o maior guerreiro da Grécia. Quando Tétis e Peleu casaram, deram um grande banquete no Monte Olimpo, para o qual todos as divindades foram convidadas. Mas Éris Ἔρις, a Deusa da Discórdia, foi impedida de entrar por se recear que originasse desentendimentos num evento que se queria de celebração. Despeitada, Éris planeou a sua vingança. No dia do banquete, enviou uma maçã dourada com a inscrição Kallistēi καλλίστῃ («para a mais bela» em grego). Três deusas então afirmaram que a maçã era para si: Hera (a esposa de Zeus), Atena (deusa da Sabedoria) e Afrodite (deusa do Amor). Como não se entenderam quanto à destinatária da maçã, pediram a Zeus que decidisse qual delas era a mais bela. Não querendo arranjar discussões (provavelmente porque não chegou a chefe dos Deuses sem saber escolher as suas batalhas), lembrando-se do recente episódio protagonizado pelo seu filho Ares e por um jovem pastor de nome Páris, decidiu que o jovem teria o sentido de justiça e imparcialidade adequados à tarefa. Hera prometeu a Páris que este seria Rei da Ásia e da Europa se a escolhesse. Atena prometeu-lhe sabedoria e destreza militar se fosse ela a escolhida. Afrodite prometeu-lhe o amor da mulher mais bela do Mundo se fosse ela a escolhida. Mostrando ser mais humano do que Zeus previra, Páris escolheu Afrodite e reclamou o seu prémio. Na altura, a mulher mais bela do Mundo era Helena, rainha de Esparta e esposa do Rei Menelau. Para mais sobre a mítica cidade de Esparta, ver os artigos Lacónica língua, que aborda, de forma sumarizada, a longa História da cidade; Vitória pírrica, que fala de Pirro e da sua morte nesta cidade. Curiosamente também, segundo a mitologia grega, os espartanos são descendentes diretos de Ares. A mitologia grega é cheia de reviravoltas curiosas: foi por causa de Ares que se escolheu Páris como o juíz da contenda divina e o prémio foi uma das suas descendentes. Por vezes, é o ato de se querer evitar que algo aconteça que leva à sua realização, tal como também se pode ver no mito de Pandora, relatado no artigo Caixa de Pandora.

   Páris foi então a Esparta e trouxe Helena (há relatos que indicam que veio por sua vontade, outros que foi raptada. Tendo em conta que foi prometida como prémio a Páris por uma Deusa, penso que a diferença aqui se esboroa...) para a cidade de Tróia, uma vez que tinha já conhecimento do seu nascimento e da sua História. A beleza de Helena era de todos conhecida e muitos tinham sido os reis que lhe tinham cortejado a mão. O seu pai, Tindereu, era rei de Esparta e teve de escolher entre os diversos pretendentes e as suas ofertas. Antes de anunciar quem se tornaria seu genro, o pai de Helena, recusando as ofertas dos pretendentes, quis que todos quanto desejavam a mão da sua filha que prometessem que defenderiam o vencedor, fosse qual fosse o escolhido, perante todos quanto desrespeitassem a escolha feita. Todos concordaram e Menelau tornou-se o orgulhoso marido da mulher mais bela do Mundo. Eventualmente Tindereu abdicou do trono, Menelau tornou-se o Rei de Esparta e teve uma filha com Helena de nome Hermíone (que tinha já 9 anos de idade quando Páris levou a sua mãe).

   Tindereu então chamou todos os pretendentes de Helena (que incluíam Odisseu, Rei de Ítica, Menestreu, Rei de Atenas, Ájax, Rei de Salamis, Patróclo, amigo de Aquiles e Idomedeu, guerreiro cretense neto de Minos) e fê-los cumprir a palavra dada anos antes. Agaménon, rei de Micenas e irmão de Menelau, e após as pretensões gregas de que Helena fosse devolvida terem sido negadas por Príamo, o Rei de Tróia e pai de Páris, organizou as tropas gregas para o combate. Mil barcos de guerra foram enviados para a costa de Tróia (após uma primeira e infrutífera expedição), com entre 70 mil e 130 mil soldados de várias cidades gregas. Chegados a terra, as tropas gregas cercaram Tróia e, ao longo dos anos seguintes, iam pilhando as terras circundantes e os aliados regionais da cidade inimiga e plantando o seu sustento. Mas, ao fim de 9 anos, as tropas gregas mostravam já descontentamento e rebelião pela sua situação. A cidade de Tróia não estava completamente isolada e reforços iam chegando. Estes incluíam as míticas guerreiras Amazonas, lideradas pela Rainha Pentesileia, que matou Aquiles em combate.  O rio Amazonas, na América do Sul, recebeu este nome devido a estas míticas guerreiras: quando, em 1541, o explorador espanhol Francisco de Orellana, encontrou uma tribo de ferozes guerreiras (a tribo Icamiabas), relatou ao rei espanhol que tinha encontrado a mítica tribo das amazonas e o nome passou a ser dado à zona e ao rio (na altura chamado Rio da Canela, por causa das árvores semelhantes às de canela que tinha).

   Odisseu, antigo pretendente de Helena e um dos reis gregos presentes, foi enviado como espião para a cidade de Tróia, disfarçado de pedinte. Helena reconheceu-o mas, saudosa de casa e da sua família, não o denunciou e ajudou-o mesmo. Foi Odisseu quem elaborou o estratagema do «Cavalo de Tróia», como forma de enganar os troianos, pois o cavalo era um animal sagrado para eles. A gigante estátua foi então esculpida (com a inscrição «Os Gregos dedicam esta oferta a Atena pelo seu regresso a casa») e, no seu interior, Odisseu e algumas tropas gregas esconderam-se. O cavalo foi deixado em terra e os navios gregos partiram em direção à ilha de Ténedos. Os troianos, julgando a guerra terminada com a partida dos gregos, levaram o cavalo para o interior da cidade, onde debateram o que fazer com ele. Cassandra, a princesa troiana com o dom da profecia, argumentou contra a cidade manter o cavalo. Mas, como tinha amaldiçoada por Apolo, ninguém escutou as suas palavras. Decidiram então ficar com o cavalo e celebraram efusivamente a sua «vitória». Durante a noite, as tropas gregas saíram do cavalo, abriram os portões da cidade e as tropas gregas, que tinham na verdade estado escondidas, entraram na cidade.

   Há versões alternativas (e mais plausíveis, talvez) para o que foi exatamente o «Cavalo de Tróia». Uma delas entende o «Cavalo de Tróia» como tendo sido uma Máquina de Guerra de Cerco, capaz de destruir muralhas inimigas e que teria sido, dessa forma, que as muralhas da cidade foram destruídas e que as tropas gregas entraram na cidade cercada. Outros que terá sido um tremor de terra que fez cair as muralhas e que terá sido dessa forma que a conquista e destruição da cidade se deu. Posídon, na mitologia grega, além do Deus dos mares, era igualmente o responsável pelos terramotos e o Deus dos cavalos. A ligação entre cavalos e tremores de terra fica estabelecida através de Posídon.

   A cidade de Tróia foi então pilhada e queimada, os seus habitantes escravizados. Aquiles tinha sido morto por Páris não em combate mas com uma seta envenenada que o atingiu no seu famoso calcanhar. O filho de Aquiles, de nome Neoptolomeu, presente também na Guerra, matou Príamo, tomou como sua Andrómaca (a esposa de Heitor), escravizou Heleno, outro irmão de Páris. O príncipe troiano foi por sua vez também morto por flechas. Menelau, o Rei traído, ainda pensou em matar a sua fugitiva mulher, mas, ao vê-la, rendeu-se à sua beleza. Ambos voltaram à sua cidade de Esparta e viveram felizes com a sua filha, a já-crescida Hermíone. Entretanto Eneias, filho de um primo de Príamo e irmão de Páris, fugiu da cidade em chamas com o seu pai (a sua mãe era a Deusa Afrodite, uma das Deusas cuja disputa veio a dar origem à guerra). Descendentes de Eneias, os gémeos Rómulo e Remo, viriam a fundar a cidade de Roma. Esta foi a semente para a criação do vasto império romano que viria, séculos depois da Guerra de Tróia, a vencer e a subjugar os Gregos. A vingança é um prato que se come frio…

   Em História, como na Matemática, uma borboleta que bata num ponto da Terra pode dar origem a uma movimentação de massas de ar que pode dar origem a um furacão do outro lado do planeta, como indicado pela teoria matemática do Caos.