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139. Psique do Amor

A história de Psique e Eros/Cupido que inspirou contos modernos, a história de uma mortal que venceu a ira de uma deusa para lutar pelo seu amor e que inspirou muitas obras de arte como quadros, estátuas e contos.

   Esta estátua chama-se “Psíque despertada pelo beijo de Cupido“, feita em 1793 pelo escultor italiano Antonio Canova (1757-1822). Tem altura 1,55 m × largura 1,68 m × profundidade 1,01 m e encontra-se no Museu do Louvre em Paris, França (existe uma segunda versão da estátua feita a partir do mesmo molde por Canova no museu Hermitage em São Petersburgo, Rússia). A história que inspirou a estátua surge na única novela do Antigo Império Romano a ter chegado intacta aos nossos dias, o livro Metamorfoses (conhecida também como o «Asno de Ouro») do escritor romano Lúcio Apuleio (125-170). Psíque vem do Antigo Grego Ψυχή  que significa “Alma” ou “Sopro de Vida” e e Eros vem do Antigo Grego Greek Eros Ερως que significa “Amor” ou “Desejo” e corresponde a Cupido em Latim. A estátua foi levada para França pelas tropas de Napoleão após a conquista do país em 1795. A história contada prendeu a imaginação de muitas pessoas ao longo da História e serviu de inspiração a muitos contos modernos.

   Psique era a mais nova de três princesas irmãs de um reino remoto. As três eram muito belas mas ela era a mais bela das três. A sua beleza era tanta que as pessoas de vários reinos vinham admirá-la, prestando-lhe homenagens que anteriormente eram oferecidas a Vénus. Profundamente ofendida e enciumada, Vénus enviou o seu filho Cupido para fazê-la apaixonar-se pela criatura mais feia e horrível de toda a terra. Mas, quando Eros a ia alvejar, arranhou-se na sua própria seta e apaixonou-se por ela. Entretanto, apesar das duas irmãs já serem casadas, Psíque continuava solteira. O Rei, pai de Psíque, suspeitando que, inadvertidamente, havia ofendido os deuses, resolveu consultar o Oráculo de Apolo, porque as suas outras filhas já tinham casado e Psique permanecia solteira. O Oráculo ordenou ao rei que a enviasse para o topo da montanha onde casaria com uma terrível besta que o próprio Zeus temia. A jovem aterrorizada foi vestida com roupa funerária, levada para o sopé do monte e abandonada pelos seus pesarosos parentes e amigos.

   Conformada com seu destino, Psique adormeceu e foi levada pela brisa do gentil Zéfiro para um lindo vale. Quando acordou, caminhou por entre as flores até chegar a um palácio magnífico. Notou que devia ser a morada de um deus tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes. Curiosa, entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz. Quando anoiteceu, foi levada para um quarto dormir para a sua noite de núpcias. Adormeceu e, a meio da noite, beijos e carícias de alguém que não conseguia ver por estar escuro acordaram-na ternamente e cobriram-na de carícias. O casamento foi consumado mas, quando acordou, o seu marido tinha desaparecido. Essa mesma cena repetiu-se nas noites seguintes. Por várias vezes, lhe pediu para a deixar vê-lo mas ele recusava perguntando-lhe se duvidava do seu amor ou se lhe faltava alguma coisa.

   Psique concordou mas sentia saudades da sua família. Pediu então ao seu marido para ver os seus pais e as suas irmãs. O seu marido acabou por concordar que as suas irmãs podiam visitá-la. Ordenou então a Zéfiro que as trouxesse. Quando as suas irmãs entraram no palácio e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, sentiram muita inveja. Notando que o esposo de Psique não as recebera, perguntaram-lhe sobre ele. Ela inicialmente mentiu dizendo que era um belo príncipe que passava os dias a caçar. Mas acabou por confessar que nunca o tinha visto. O seu marido tinha-a alertado que as suas irmãs queriam que ela visse a sua face mas, se assim o fizesse, ela nunca mais saberia dele. Além disso, ele tinha-lhe contado que ela estava grávida e que a criança seria divina. Ao receber novamente as suas irmãs, Psique contou-lhes que estava grávida e que a sua criança seria divina. As duas ficaram ainda mais enciumadas pois, além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um deus. Decidiram por isso convencê-la a ver o rosto do marido. Disseram-lhe que se ele se estava a esconder era porque havia algo de errado e ele realmente deveria ser uma horrível besta como profetizado pelo Oráculo que a devoraria a ela e à criança. Assustada com o que suas irmãs lhe disseram, seguiu-lhes o conselho e escondeu uma faca e uma lâmpada ao pé da cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido. Se ele fosse realmente um monstro terrível matá-lo-ia.

   À noite, quando Cupido dormia ao seu lado, Psique aproximou a lâmpada do seu rosto. Estava à espera do horrível monstro de que falara o Oráculo mas, para sua surpresa, viu um jovem de extrema beleza. Não era nenhum monstro, era o próprio Cupido que dormia ao seu lado. Ficou tão admirada que se picou numa das setas do Cupido adormecido, apaixonando-se perdidamente por ele. Estava a admirar o deus alado quando uma gota de azeite quente da lâmpada caiu sobre o ombro direito de Cupido, acordando-o. Ele olhou-a e, sem dizer uma palavra, voou e saiu pela janela do quarto. Psique tentou segui-lo mas acabou por cair da janela para o chão. Cupido  voltou então atrás e disse-lhe: «Tola Psique! É assim que retribuia o meu amor? Depois de ter desobedecido às ordens da minha mãe e te casado contigo, tu retribuis achando que eu era um monstro e estando disposta a cortar a minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não te imponho outro castigo para além de te deixar para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita.»

   Quando Psique se recompôs, notou que o lindo palácio à sua volta desaparecera e que se encontrava num campo próximo da casa das irmãs que, quando souberam do que acontecera, fingiram tristeza pela irmã enquanto disfarçavam uma grande exultação. Estavam decididadas a serem escolhidas por Cupido para substituir a irmã e por isso partiram para o topo da montanha pensando em conquistar o seu amor. Lá chegadas, chamaram o vento Zéfiro para que as sustentasse no ar e as levasse até ao seu amo. Mas Zéfiro, desta vez, deixou-as cair a meio do voo e a sua inveja foi recompensada pela morte. Psique, resolvida a reconquistar Eros, saiu à sua procura por toda a parte, dia e noite. Pediu ajuda a todos os deuses e vageou, encontrou-se com o deus Baco, foi ao templo da deusa Ceres e ao templo da deusa Juno mas nenhuma delas a podia ajudar contra outra deusa. Psique decidiu então ir ao templo de Vénus e prostrar-se perante ela. Mas Vénus, ao recebê-la no seu templo, não escondeu a sua raiva. Afinal tinha sido por causa daquela reles mortal que o seu filho Cupido tinha desobedecido às suas ordens e que agora se encontrava de cama a recuperar da tristeza que ela tinha provocado. Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que Psique deveria realizar, tarefas extremamente difíceis que podiam até causar a sua morte.

   Deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psique ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou o seu exército que separou cada uma das qualidades de grão. Vénus desconfiou que não tinha sido Psique a realizar tamanha tarefa. Por isso, como segunda tarefa, ordenou-lhe que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psique estava disposta a cruzar o rio mas o deus dos rios disse-lhe que não atravessasse as água até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente. Se não fizesse isso, ela seria atacada e morta por eles. Assim, Psique esperou até o sol ficar bem alto no céu, atravessou o rio e levou a Vénus uma grande quantidade de lã dourada. Novamente Vénus não ficou satisfeita. Para terceira tarefa, teria subir ao topo de uma alta montanha e trazer-lhe uma jarra com a água escura dos rios infernais Estige e Cócito no seu cume. Quando Psique lá chegou, encontrou dragões que guardavam a fonte. Mas o deus Júpiter enviou a sua grande águia para a ajudar e encher a jarra com a água negra. Psique levou então a água a Vénus.

   Furiosa com o sucesso da jovem, Vénus planeou uma última tarefa. Psique deveria descer ao submundo e pedir à mulher  Proserpina que lhe desse um pouco da sua beleza para Vénus recuperar a parte da sua beleza que tinha perdido por preocupação com o seu filho Cupido. Desesperada, subiu ao topo de uma elevada torre decidida a atirar-se morrer e assim alcançar o submundo. A torre porém murmurou-lhe como entrar no reino do deus Plutão, marido de Proserpina, através de uma caverna secreta na Lacedemónia, a terra dos Espartanos de que se falou no artigo  Lacónica língua. Ensinou-lhe ainda como ultrapassar os diversos perigos da jornada, como passar pelo cão Cérbero com pães de mel e duas moedas para dar a Caronte como pagamento pela travessia do rio Estige à ida e vinda. Proserpina deu-lhe uma caixa com a sua beleza. Porém, no caminho de regresso, cheia de curiosidade, abriu a caixa para ver o que tinha. Mas, em vez de ver a beleza de Proserpina, caiu num profundo sono infernal.

   Cupido, já curado, voou ao socorro de Psique e conseguiu retirar-lhe o sono que a prendia, acordando-a com um beíjo. Mais uma vez a sua curiosidade tinha-a colocado numa péssima situação mas agora, com a sua ajuda, podia apresentar-se a Vénus com a tarefa cumprida. Enquanto isso, Cupido foi ao encontro de Zeus e implorou-lhe que apaziguasse a sua mãe Vénus e ratificasse o seu casamento com Psique. Atendendo ao seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes conduzisse a jovem à assembleia dos deuses e que lhe fosse oferecida uma taça de ambrósia, a bebida dos deuses. Então com toda a cerimónia Cupido pode ficar ao lado de Psique e da filha de ambos chamada Voluptas (Prazer).

   É uma história sobre uma jovem muito bonita, vítima das invejas familiares, que conhece um jovem por quem se apaixona, que é ajudada por pequenos seres nas suas tarefas, que no final casa com o jovem e é feliz para sempre. Eis a inspiração para as histórias infantis da Branca de Neve, a Cinderela, a Bela e o Monstro. Canova colocou na estátua uma barra na base (agora imobilizada para a proteger) para que ela pudesse ser girada e melhor apreciada. 

   Para um mito clássico com algumas reflexões ver o artigo Caixa de Pandora.