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117. Seda explosiva

Um menino que adorava Poesia, explosivos, amizades desfeitas, seda artificial, a criação dos prémios científicos mais reputados do Mundo e porque a Matemática não é uma das suas categorias.

   A 21 de Outubro de 1833 nasceu em Estocolmo, Suécia, um menino a quem foi dado o nome de Alfred. O seu pai era um construtor civil chamado Immanuel que foi também um inventor (inventou o contraplacado em 1847, entre outras invenções) e que se interessava pela investigação sobre explosivos. Mas as coisas correram mal e Immanuel ficou na miséria. Deixou por isso a família em 1837 para procurar trabalho na Finlândia e na Rússia. As coisas melhoraram e, em 1842, a sua família juntou-se-lhe em São Petersburgo. Lá o pequeno Alfredo recebeu uma excelente educação. O pai chamava-se Immanuel Nobel e o filho é o conhecido Alfred Nobel.

   O pequeno Alfred gostava de Química e Física, apesar das suas paixões serem a Literatura e a Poesia (quando morreu deixou escritos 1 500 livros de Literatura, Poesia e Filosofia). Mas o seu pragmático pai Immanuel considerava semelhantes coisas uma perda de tempo e decidiu que o seu filho receberia formação como Engenheiro Químico. Como o seu pai, Alfredo desenvolveu um gosto por explosivos, em particular pela nitroglicerina, descoberta pouco tempo antes (em 1847) pelo químico italiano Ascanio Sobrero, que foi colega de Alfred Nobel na Universidade de Turim. Era um líquido pastoso, incolor, muito explosivo e acima de tudo muito instável e sensível ao mais pequeno choque. Tão perigoso e instável que Sobrero interrompeu as suas investigações sobre o composto.

   Mas Alfred Nobel retomou as investigações em 1860 com a ajuda do pai Immanuel Nobel e do irmão mais novo Emil Nobel. Em 1864, o filho mais novo, chamado Emil Nobel, morreu numa explosão enquanto fazia experiências com nitroglicerina na fábrica de explosivos da família. Alfred continuou a experimentar várias combinações de nitroglicerina com outros compostos para a tornar mais estável e manejável. Em 1867, Alfred patenteou um composto de nitroglicerina a que deu o nome de dinamite. E nos anos seguintes viajou pelo mundo vendendo a sua invenção e tornando-se cada vez mais rico. Pelo caminho ia patenteando outras descobertas (como a seda artificial ou rayon, as Balistite entre outras).

   Quando morreu, a 10 de Dezembro de 1896 em São Remo em Itália, Alfred doou 9 milhões de dólares (cerca de 19,35 milhões de € ou 79,20 milhões de R$ em 2018) para a criação de uma instituição que deveria premiar anualmente as personalidades que «mais contribuíram, no ano anterior, para o maior benefício da Humanidade» numa de 6 áreas: Paz, Literatura, Física, Química, Medicina (ou Fisiologia). O da Economia surgiu mais tarde, em 1969, instituído pelo Banco Central da Suécia. Nasciam os Prémios Nobel (que, respeitando as convenções da língua portuguesa, deve ser lido como «Nobél», por terminar em L e não ter acento na penúltima sílaba tal como também é lido em Sueco e em Inglês).

   Mas uma área do conhecimento humano, uma que tem acompanhado o Ser Humano desde que surgiu na face do planeta, foi misteriosamente deixada de lado: não há Prémio Nobel da Matemática! Tendo sido Nobel engenheiro e inventor, os conhecimentos e as aplicações matemáticas ter-lhe-ão sido muito importantes. Por isso a razão desta ausência tem sido objecto de muitas especulações.

   Uma das especulações mais comuns (se bem que inteiramente infundada) é a de que Nobel terá decidido não atribuir um prémio à Matemática por causa uma mulher que não o quis ou o  recusou em detrimento de um Matemático famoso. O nome mais referido é o do eminente Matemático sueco da altura, Magnus Gösta Mittag-Leffler (1846-1927). Mas não há evidências históricas que apoiem tal afirmação. Em primeiro lugar, Alfred Nobel nunca casou. Por isso não podia ter sido traído ou trocado por Gösta. Ele teve realmente uma amante, uma vienense chamada Sophie Hess mas não há registo de qualquer separação ou traição. Gösta (ou Gustav) Mittag-Leffler foi um matemático importante na Suécia nos finais do século XIX e princípios do século XX e foi fundador do jornal Acta Mathematica, além de ter tido um papel importante no estabelecimento da Universidade de Estocolmo em 1878. Mas parece improvável que ele tivesse sido um grande candidato para um Prémio Nobel da Matemática pois, na mesma época, viveram grandes Matemáticos como Henri Poincaré e David Hilbert. Não há evidências de que Gösta Mittag-Leffler tivesse muito contacto com Nobel (que morou em Paris nos últimos tempos da sua vida) e muito menos que houvesse inimizade entre eles por qualquer razão. Pelo contrário, perto do final da vida de Nobel, Gösta Mittag-Leffler esteve envolvido em negociações diplomáticas para tentar persuadi-lo a legar parte da sua fortuna à Universidade de Estocolmo. É difícil de acreditar que ele o tivesse tentado se existissem problemas entre eles. Inicialmente Nobel teve mesmo a intenção de fazer esse legado à Universidade. Mas depois ocorreu-lhe a ideia do Prémio Nobel, para grande desgosto da Universidade (para não falar no dos parentes de Nobel e da senhorita Hess, claro).

   A explicação mais plausível é a de que Nobel, inventor e industrial, não criou um prémio para a Matemática simplesmente porque não se interessava por ciências teóricas. O seu testamento falava de prémios para aquelas “invenções e descobertas” de grande benefício prático para a Humanidade. Mas esta não era considerada uma ciência prática da qual a Humanidade pudesse beneficiar (o principal motivo da criação da Fundação Nobel), um preconceito desactualizado mas comum no século XIX. Para promoverem a investigação em alguma área da Matemática, os matemáticos do mundo decidiram, no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM) realizado em Toronto, Canadá, que em cada nova sessão do Congresso seriam atribuídos prémios para reconhecer grandes feitos Matemáticos. Atualmente há 8 prémios internacionais na área da Matemática incluindo a Medalha Fields, a Medalha Chern, o Prémio Nevanlinna, o Prémio Carl Friedrich Gauss, o Prémio ICTP Ramanujan, o Prémio Inovação (instituído por  Sergey Brin, Anne Wojcicki, Mark Zuckerberg, Priscilla Chan, Yuri Milner, Julia Milner, Jack Ma e Cathy Zhang), o Prémio Ostrowski e o Prémio Paul Erdős. Contudo a versão das rivalidades por causa de uma mulher é muito mais apelativa e assim se continua a transmitir-se erradamente a ideia errada do «Amor atraiçoado logo não há Prémio Nobel da Matemática.»

   Os membros da família Nobel ficaram chocados quando viram que a fortuna que esperavam receber tinha sido dada por Nobel para criar os Prémios Nobel. Contestaram em tribunal o testamento mas perderam. Os desejos de Nobel foram concretizados e os primeiros foram atribuídos em 1901, cinco anos após a sua morte. Foram atribuídos nesse primeiro ano de 1901 o Nobel da Química a Jacobus H. van ‘t Hoff; da Literatura a Sully Prudhomme; de Medicina a Emil von Behring; da Paz a Henry Dunant e Frédéric Passy; da Física a Wilhelm Conrad Röntgen. O Prémio Nobel da Economia foi apenas estabelecido em 1968 e o primeiro foi atribuído em 1969 a Ragnar Frisch e Jan Tinbergen. A Academia Real de Ciências de Estocolmo administra os prémios de Física e de Química, o Instituto Real Médico Caroline atribui o de Medicina, a Academia Sueca atribui o da Literatura e o Parlamento Norueguês atribui o da Paz. O elemento Nobélio, descoberto em 1958, recebeu o seu nome como homenagem a Alfred Nobel.